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IA faz disparar emissões da Microsoft e afasta meta de 2030

A Microsoft prometeu ser carbono negativa em 2030. Quatro anos antes do prazo, as emissões sobem 25% e a culpa está a ser empurrada para os data centres de IA.

IA faz disparar emissões da Microsoft e afasta meta de 2030

A Microsoft jurou em 2020 que, em 2030, iria remover mais carbono do que emite. O mais recente relatório de sustentabilidade mostra o oposto: as emissões subiram 25,1% num ano, de 16,2 para 20,3 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. Face ao ano de referência da promessa, 2020, a empresa está agora cerca de 58% acima do ponto de partida. Para quem vende IA como solução para tudo, incluindo clima, é um número pouco confortável.

Há uma parte deste salto que é, paradoxalmente, sinal de maior honestidade. A Microsoft deixou de usar certos certificados de energia renovável de curto prazo que embelezavam as contas mas pouco mudavam a realidade física da eletricidade na rede. Ao tirar esse verniz contabilístico, as emissões de Scope 2, ligadas à eletricidade comprada, passam de 1,6% para 13,3% do total num ano. O fumo é o mesmo, desapareceu foi o truque de luzes que o escondia.

O resto é crescimento real, em betão, aço e megawatts. A empresa está a montar infraestruturas de cloud e centros de dados de IA a uma velocidade que a engenharia adora e o clima paga. O uso de gasóleo e crude subiu 51%, mesmo com cortes em gás natural e gasolina. Cada novo campus de servidores é uma espécie de mini zona industrial ligada à rede, muitas vezes ainda dominada por fósseis. Quando a Microsoft repete que a IA corre na nuvem, o que não diz é que essa nuvem tem chaminés bem tangíveis no outro lado da linha de alta tensão.

Em defesa própria, a empresa sublinha o contrafactual: sem medidas de eficiência e contratos de eletricidade renovável, as emissões teriam rondado os 34 milhões de toneladas. Garante também que iguala 100% do consumo elétrico anual com energia renovável, devolve mais água do que capta, mais de 14 milhões de metros cúbicos, e reutiliza ou recicla 92% dos servidores abatidos. A frase oficial, da responsável de sustentabilidade, é elegante: a inovação em larga escala tem de ser acompanhada por responsabilidade no mesmo nível. O problema é que a responsabilidade séria mede-se pela trajetória para a meta, não pelos slides de “progressos”.

O choque está aí: a mesma IA em que a Microsoft aposta o futuro é o que está a rebentar com a matemática climática interna. Há contratos de remoção de carbono, edifícios em madeira maciça, acordos gigantes de energia limpa. Nada disto está a escalar ao ritmo dos centros de dados. Faltam quatro anos para 2030, e neste momento a linha vai na direção errada. Para quem segue o histórico da empresa em matéria de compromissos públicos, desde os malabarismos fiscais na UE à forma como fala de privacidade, esta assimetria entre marketing e contabilidade já não surpreende.

A Microsoft também não está sozinha no desvio: Amazon e Google reportaram subidas de emissões na casa dos dois dígitos e culparam o mesmo culpado prático, a IA. Meta anda a erguer complexos de data centres que rebentam orçamentos e comunidades locais. O sector inteiro empurra modelos gigantes de IA como inevitáveis, mas trata o impacto físico desses modelos como nota de rodapé. Para quem está em Portugal, a discussão ainda parece distante. Só que a energia que alimenta a próxima vaga de Copilots, ChatGPTs integrados e semelhante vai sair da mesma rede europeia onde se decide se desliga carvão ou não. O custo ambiental da IA não é abstrato, está a ser escrito linha a linha nos relatórios anuais.

Fonte: The Next Web

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