Nova Iorque trava novos megadatacenters de IA durante um ano
O primeiro travão estadual a datacenters nos EUA põe a fatura da eletricidade e o impacto ambiental no centro da discussão sobre IA. A Europa anda a dormir ao volante.
O primeiro travão estadual a datacenters nos EUA põe a fatura da eletricidade e o impacto ambiental no centro da discussão sobre IA. A Europa anda a dormir ao volante.
Nova Iorque acaba de se tornar o primeiro estado dos EUA a pôr um travão a novos megadatacenters. A governadora Kathy Hochul assinou uma moratória que congela, por até um ano, novos licenciamentos ambientais para centros de dados acima dos 50 megawatts de potência.
Na prática, isto significa que os gigantes da cloud e da IA que queiram montar infraestrutura de escala hiperscale no estado ficam em pausa administrativa. O objetivo declarado é simples, e politicamente vendável: ganhar tempo para criar regras que protejam residentes de contas de luz mais altas e de impactos ambientais mais pesados, desde consumo de água à qualidade do ar. O detalhe curioso é que o parlamento estadual já tinha aprovado uma moratória própria, mais agressiva, com limite nos 20 megawatts. Essa ainda aguarda assinatura de Hochul.
O gabinete da governadora admitiu que nem sequer tem um número claro de projetos travados por esta ordem. O patamar dos 50 megawatts foi escolhido, dizem, para não bloquear datacenters mais pequenos, incluindo os usados por hospitais e outras instituições públicas. É o argumento clássico: ninguém quer levar com a fatura energética dos modelos de IA generativa, mas também ninguém quer ver sistemas críticos a cair porque um político decidiu mostrar serviço.
Durante este ano de pausa, o regulador estadual da energia, o Department of Public Service (DPS), vai definir padrões para avaliar o impacto ambiental destes centros, incluindo água, emissões e pressão sobre a rede elétrica. Hochul pede ainda que se estude um mecanismo para obrigar datacenters a investir diretamente na infraestrutura energética do estado, e quer um enquadramento que ajude comunidades locais a negociar contrapartidas quando um operador bate à porta com promessas de empregos e muitos megawatts. Depois da quase-moratória chumbada no Maine em abril, Nova Iorque quer marcar posição nacional em plena corrida à IA.
Se isto soa familiar a leitores europeus, é porque já vimos um filme parecido, mas com outro tom. A Irlanda, por exemplo, já gasta cerca de 23% da eletricidade só para alimentar datacenters, como detalhámos quando olhámos para o caso irlandês em um artigo anterior sobre o peso dos centros de dados na rede. Em vez de discutir se deve haver um travão político claro, muitos países preferem deixar que a tensão se acumule nas redes elétricas e na opinião pública, enquanto recebem alegremente investimento estrangeiro e benefícios fiscais.
Em Portugal, a conversa ainda anda atrás do marketing dos “hubs de dados” e da “economia digital”, quase sempre sem ligação séria ao plano energético ou à escassez de água. Centros de dados são infraestruturas físicas pesadas, não nuvens fofas. Puxam por linhas de alta tensão, por estações de bombagem, por terrenos baratos em zonas periféricas. Nova Iorque está a dizer em voz alta o que muitos reguladores europeus só admitem em off: a expansão desenfreada de datacenters de IA bate de frente com metas climáticas e com carteiras de consumidores.
É cedo para saber se a moratória de Hochul vira modelo para outros estados ou se morre como gesto político isolado. Mas já é um sinal para as Big Tech: a era em que se podia despejar megawatts de IA em qualquer lado, desde que viessem uns empregos e umas obras, está a encolher. Seria útil que a União Europeia, tão rápida a legislar sobre cookies, ganhasse a mesma assertividade naquilo que realmente mexe com a rede elétrica.
Fonte: The Verge
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