Irlanda já gasta 23% da eletricidade só a alimentar datacenters
Os gigantes de dados consomem mais luz que todas as casas urbanas irlandesas juntas. A Europa olha para Dublin como cenário de futuro, não como exceção distante.
Os gigantes de dados consomem mais luz que todas as casas urbanas irlandesas juntas. A Europa olha para Dublin como cenário de futuro, não como exceção distante.
Quase um quarto de toda a eletricidade medida na Irlanda já vai para datacenters. Em 2025, estas infraestruturas consumiram 23 por cento da energia elétrica do país, mais do que todos os agregados familiares urbanos, que ficaram pelos 18 por cento.
Os números são do Central Statistics Office irlandês e mostram um descontrolo difícil de mascarar. Em 2015, os datacenters representavam 5 por cento do consumo elétrico. Em 2021 já iam em 14 por cento, passaram os 20 por cento em 2023 e chegaram aos 23 por cento em 2025. No último ano, o consumo destes centros subiu 10 por cento, de 6.973 GWh para 7.663 GWh. No mesmo período, todos os outros clientes somados aumentaram apenas 2 por cento.
O detalhe irónico: esta escalada aconteceu praticamente toda sob uma moratória de novas ligações à rede na zona de Dublin, imposta pelo regulador CRU (Commission for Regulation of Utilities). A proibição de novas ligações na capital só foi levantada em dezembro de 2025. Ou seja, mesmo com a torneira quase fechada, o que já existia foi suficiente para puxar mais mil gigawatts-hora da rede. A ideia de que se controla o problema só com “pausas” administrativas está, no mínimo, otimista.
Perante o risco real de os datacenters chegarem a um terço do consumo elétrico nacional, a Irlanda apertou as regras. Qualquer operador que queira uma ligação à rede superior a 10 MW tem agora de instalar geradores ou baterias capazes de fornecer a mesma potência e de a devolver à rede quando o sistema precisar. Microsoft e Digital Realty já andavam a testar este modelo de datacenter “interativo com a grelha elétrica”, mas aqui a motivação é menos verde e mais pura gestão de risco. Não é por acaso que, noutro lado do Atlântico, a mesma Microsoft viu as emissões disparar com a corrida à IA.
Há mais de 80 datacenters na Irlanda, um país de pouco mais de 5 milhões de habitantes. A contestação pública tem crescido e já não é só por causa da paisagem. A preocupação é simples: se uma infraestrutura que serve o mundo inteiro consome tanta energia num território pequeno, quem paga a fatura em preços, emissões e segurança de abastecimento são os residentes, não os acionistas em Silicon Valley. Até a administração Trump, nos EUA, anda a pedir às big tech compromissos de que os seus parques de servidores não vão inflacionar contas de luz nem secar reservas de água.
Para Portugal e para o resto da União Europeia, Dublin está mais perto de espelho do que de curiosidade. A combinação de zonas com rede elétrica limitada, metas climáticas agressivas e pressão para atrair investimento em IA e cloud é a mesma. A diferença é de escala, por enquanto. Se a política europeia continuar a tratar a pegada dos datacenters como um dano colateral aceitável do “progresso digital”, não vão faltar mais Irlandas no mapa energético da UE.
Fonte: The Register
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