CIêNCIA

China apanha primeiro foguetão reutilizável com uma rede no mar

Pequim junta-se ao clube da recuperação de boosters, mas escolhe um método próprio: ganchos numa rede gigante em vez de pernas de aterragem à SpaceX.

China apanha primeiro foguetão reutilizável com uma rede no mar

A China tornou-se o segundo país no mundo a recuperar um foguetão reutilizável, mas fez questão de não copiar o manual da SpaceX. Em vez de pernas retráteis e plataformas rígidas, o Longa Marcha 10B estreou-se com uma aterragem controlada… numa rede ancorada no mar. Um “catch of the day” bastante caro, transmitido pela televisão estatal CCTV como grande vitória tecnológica.

O foguetão, desenvolvido pela estatal China Academy of Launch Vehicle Technology (CALT), estava em voo inaugural. A missão foi descrita pela CALT como um “avanço histórico” na tecnologia de reutilização, traduzido automaticamente pela Gemini, com a habitual linguagem de comunicado que soa mais a propaganda que a engenharia. Ainda assim, o facto permanece: é a primeira vez que um booster orbital é apanhado intacto com um sistema de ganchos numa rede, em vez de aterrar sobre patas metálicas ou abraçado por braços robóticos como no Starship.

O vídeo divulgado mostra o booster a descer sob potência própria, a cortar motores perto da estrutura e depois… fade para preto no momento chave. O mecanismo de captura em si praticamente não se vê, o que numa demonstração destas é sempre conveniente, sobretudo quando se quer controlar a narrativa. Mas o resultado é claro o suficiente para os pares na indústria: a China já não está apenas a perseguir a SpaceX, está a experimentar soluções próprias para reduzir custos de acesso ao espaço, enquanto empresas privadas e programas estatais reorganizam o mercado de lançadores, de Pegasus silenciosamente reformados a startups indianas e chinesas.

Segundo a CALT, o booster será reutilizado num novo voo até ao fim do ano. Esta cadência vai ser o verdadeiro teste. Recuperar um foguetão é um número mediático. Voltar a lançá-lo diversas vezes com inspeções rápidas é que dita se a conta fecha. A SpaceX atingiu 165 lançamentos orbitais em 2025 só com a família Falcon. A China, no total do país, fez 92 tentativas no mesmo ano. É aqui que a diferença ainda pesa: não é falta de tecnologia, é de escala operacional e de maturidade de processo.

O contexto interno também conta. Pequim quer ser “potência espacial” em 2030, com presença lunar, constelações de satélites próprias e capacidade militar em órbita, num cenário em que conceitos como caçar ogivas com pequenos satélites já não são ficção, como explicámos quando falámos de CubeSats a seguir ogivas nucleares em órbita. Para esse programa, lançar barato e muitas vezes deixa de ser luxo e passa a infraestrutura estratégica. A reutilização é a única forma sensata de chegar lá sem deitar o orçamento ao mar.

Outros actores locais também entram na corrida. A LandSpace, empresa privada de Pequim, tem o ZhuQue-3 com um sistema mais “clássico” de pernas de aterragem ao estilo Falcon 9. A última tentativa ficou perto do sucesso mas acabou em bola de fogo, sem direito a retransmissão. A diferença é que quando uma estatal como a CALT acerta, isso pesa tanto no prestígio interno como na mensagem externa. Para quem acompanha o sector, o recado é simples: a SpaceX continua à frente, mas já não está sozinha no clube dos boosters que voltam para casa.

Fonte: Engadget

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