CIêNCIA

Como caçar ogivas nucleares escondidas em órbita com CubeSats baratos

Um físico do MIT propõe usar satélites modestos para verificar o cumprimento do tratado que proíbe armas nucleares no espaço. Se funcionar, muda a conversa sobre militarização orbital.

Como caçar ogivas nucleares escondidas em órbita com CubeSats baratos

Há quase 60 anos que o Tratado do Espaço Exterior proíbe armas nucleares em órbita. O problema é simples e desconfortável: ninguém tem uma forma fiável de comprovar se algum país resolveu ignorar o papel assinado em 1967.

A proposta mais recente vem de Areg Danagoulian, professor associado no MIT, que publicou na Nature um modelo detalhado de como detectar ogivas nucleares escondidas em satélites. A ideia não passa por imagens de alta resolução nem por truques de espionagem clássica. Passa pela física de partículas que já anda por lá em cima: protões de alta energia presos no campo magnético da Terra a bombardear tudo o que encontram.

O estudo concentra-se em órbitas a cerca de 2.000 km de altitude, onde o campo magnético terrestre captura electrões com energias na ordem dos megaelectronvolt (MeV) e protões até gigaelectronvolt (GeV). Quando estes protões de energia GeV atingem núcleos pesados como urânio ou plutónio, materiais típicos de armas nucleares, desencadeiam spallation nuclear: uma espécie de “lascar” do núcleo que gera radiação secundária, incluindo neutrões e raios gama. Segundo o trabalho, um satélite que leve uma ogiva a bordo acabaria por emitir um sinal de neutrões característico, impossível de reproduzir com sucata inofensiva.

É aqui que entram os chamados satélites “inspetores”. Danagoulian modelou um sistema baseado num CubeSat de até 18 kg, construído com equipamento comercial, capaz de medir esse fluxo de neutrões. Os cálculos indicam que um destes satélites poderia identificar uma arma termonuclear a cerca de 4 km de distância, ao fim de aproximadamente uma semana de observações. Em teoria, uma constelação de pequenos inspetores poderia circular por órbitas suspeitas e fazer auditorias discretas ao arsenal espacial alheio, sem depender da boa vontade de ninguém.

Há, claro, várias camadas de sal a pôr em cima deste entusiasmo teórico. A própria autora do artigo de comentário, Angela Di Fulvio, lembra que o trabalho é uma base física, não um sistema pronto a lançar. Falta engenharia de prova de conceito, falta validar o modelo em ambiente real, falta perceber como é que se coordena politicamente uma frota de satélites que, na prática, anda a espreitar hardware militar de grandes potências. Num contexto em que empresas como a SpaceX ou a Blue Origin já dominam a órbita baixa para fins comerciais e estratégicos, e em que a cadência de lançamentos acelera, como temos acompanhado em peças sobre a pressão competitiva no sector, a linha entre verificação de tratados e espionagem clássica fica mais fina.

Mesmo assim, a mensagem é clara: tecnologia para verificar o cumprimento do tratado já não é ficção científica. Se os governos quiserem, podem deixar de fingir que a proibição de armas nucleares em órbita se sustenta só na confiança mútua. A questão deixa de ser se conseguimos ver quem leva ogivas para o espaço. Passa a ser se há vontade política para alguém olhar de frente para os dados.

Fonte: The Register

Newsletter

Os artigos que importam, duas vezes por semana.

Terça e sexta, cinco minutos de leitura. Sem spam, cancelas quando quiseres.

Comentários · 0