ERNEST, o rover da NASA que acelera 10x o ritmo em Marte
O novo protótipo da NASA andou 26 km em testes no deserto e usa IA para decidir onde põe as rodas. Se chegar à Lua ou a Marte, muda o tipo de ciência que se faz lá.
O novo protótipo da NASA andou 26 km em testes no deserto e usa IA para decidir onde põe as rodas. Se chegar à Lua ou a Marte, muda o tipo de ciência que se faz lá.
Enquanto os rovers em Marte andam ao passo de caracol, a NASA passou a semana a fazer corridas no deserto da Califórnia. O resultado chama-se ERNEST e andou 26 km em 37 horas de condução, cerca de 10 vezes mais rápido do que qualquer coisa que a agência tem hoje em Marte.
O nome completo é Exploration Rover for Navigating Extreme Sloped Terrain. Tem cerca de 1,2 m de comprimento, quatro rodas em malha metálica e, mais importante, uma suspensão activa com dois actuadores por roda. Em vez do sistema rocker-bogie usado desde o Sojourner em 1997, o ERNEST consegue levantar rodas individualmente, andar de lado, mudar de “andar” e até fazer um modo de “squirming”, uma espécie de rastejar mecânico para ultrapassar rochas e declives agressivos.
Esta suspensão trabalha com um sistema de embraiagem que alterna entre modo passivo e activo. Passivo para poupar energia em terreno plano. Activo quando há encostas e pedregulhos que deixariam um Curiosity ou um Perseverance encalhado. A velocidade máxima de teste foi de cerca de 1 km/h, um valor ridículo para um humano, mas que é um salto dramático face aos cerca de 0,1 km/h dos actuais rovers marcianos.
A diferença não vem só do hardware. O ERNEST foi treinado com reinforcement learning no laboratório DARTS do Jet Propulsion Laboratory, a partir de milhares de horas virtuais em terreno gerado proceduralmente. Em vez de esperar minutos por comandos enviados da Terra, o rover aprende a decidir sozinho onde pôr as rodas. O mesmo tipo de lógica autónoma que já vimos em órbita, como no satélite que responde a pedidos em linguagem natural no espaço, começa a descer à superfície e a mexer-se por conta própria.
Este salto de autonomia é o ponto em que a exploração planetária se afasta da teleoperação lenta e entra numa era de “confiança desconfortável” na máquina. A NASA não está a testar velocidade por desporto, está a testar um novo contrato: menos microgestão humana, mais liberdade algorítmica, desde que os resultados científicos compensem o risco. À escala europeia, onde missões espaciais são decididas a muitas mãos, a ideia de um robot treinado por IA a improvisar num vale lunar vai obrigar a debates sérios sobre responsabilidade e certificação.
Os testes no Colorado Desert começaram no “Mars Yard” da NASA em Pasadena e passaram depois para terreno natural, incluindo sessões em completa escuridão para emular as condições de luz reduzida no pólo sul lunar. O objectivo óbvio é a Lua e Marte, mas o subtexto é outro: se os rovers puderem cobrir 10 vezes mais terreno, o gargalo deixa de ser a mobilidade e passa a ser o que se faz com os dados. O problema deixa de ser chegar às rochas certas, passa a ser ter rede, armazenamento e tempo de cientista para lidar com o bombardeamento de informação. A tecnologia para lá chegar está a acelerar mais depressa do que o lado humano da exploração espacial.
Fonte: The Next Web
Comentários · 0