Xi vende IA open-source aos BRICS enquanto trava os seus próprios modelos
Pequim quer liderar um clube de IA aberta fora da órbita ocidental, mas está a apertar o controlo interno. A UE respondeu à mesma pergunta com o AI Act e multas em vigor.
Pequim quer liderar um clube de IA aberta fora da órbita ocidental, mas está a apertar o controlo interno. A UE respondeu à mesma pergunta com o AI Act e multas em vigor.
Xi Jinping apareceu na cimeira dos BRICS com uma proposta que soa generosa à superfície: uma comunidade de IA open-source liderada pela China. Na prática, é mais um movimento no tabuleiro onde Pequim tenta organizar um bloco tecnológico alternativo ao eixo EUA‑UE, sem abrir mão do controlo sobre os modelos que realmente importam dentro de portas.
Segundo a Bloomberg, Xi usou o encontro em Nova Deli para defender uma comunidade de inteligência artificial de código aberto focada em grandes modelos de linguagem, com cooperação, seminários e formação. No dia anterior, tinha convidado os mesmos países a entrar na World AI Cooperation Organization, criada por Pequim em julho, com sede em Xangai e já com 29 estados signatários como Rússia, Paquistão, Cazaquistão, Indonésia e Brasil. Nenhum estado-membro da União Europeia assinou.
O detalhe relevante: a declaração conjunta final dos BRICS ignorou por completo o convite chinês. Falou vagamente de cooperação internacional em acesso a recursos de IA, sublinhando segurança, fiabilidade e inclusão, mas deixou o clube de IA de Xi no vazio diplomático. A China tenta oferecer uma narrativa de “IA aberta do Sul Global”, ao mesmo tempo que, internamente, a conversa é outra. Como já vimos no dossiê dos data centers e controlo de chips, Pequim gosta pouco de perder alavancas técnicas quando está em jogo poder estratégico.
Na Europa, o debate sobre até onde pode ir a abertura dos modelos não ficou em comunicados. Ficou escrito no AI Act. O regulamento europeu isenta de várias obrigações os fornecedores de modelos de propósitos gerais genuinamente livres e open-source: não precisam de manter documentação técnica para reguladores, de a passar a clientes, nem de nomear representante na UE. Mas há condições claras. Pesos, parâmetros e arquitetura têm de ser públicos, e a licença tem de permitir uso e modificação sem monetização. A partir do momento em que um modelo entra na categoria de risco sistémico, a conversa muda: cumpre praticamente tudo como um modelo fechado, mesmo com licença aberta.
Essas regras deixaram de ser teoria a 2 de agosto, quando a Comissão Europeia passou a poder exigir avaliações, limitar o acesso ao mercado e aplicar coimas de até 3% da faturação global. Ou seja, o “teto” da abertura na UE é conhecido, publicado e contestável em tribunal. É um compromisso político claro, com todas as fragilidades que já discutimos quando olhámos para a chefia tech da UE a avisar Washington que as regras de IA vão chegar aos EUA mais tarde ou mais cedo, e para o pedido de travão à corrida aos modelos gigantes vindo de dentro da própria OpenAI.
Na China, o teto existe, mas não está em lado nenhum que se possa citar numa petição em tribunal. Xi falou em julho, na cimeira interna de IA, da necessidade de equilibrar desenvolvimento e segurança. Canais oficiosos próximos do aparelho sugeriram restrições às funcionalidades mais avançadas dos modelos. O ministro da Segurança de Estado tem escrito sobre IA em termos de segurança nacional, não de software livre. Quando Pequim vende “open-source” aos BRICS, está sobretudo a exportar alinhamento político, não a abdicar de controlo tecnológico. Para quem olha da Europa e de Portugal, a mensagem prática é simples: a geopolítica da IA não se vai decidir só entre São Francisco e Bruxelas. Xangai também quer escrever as regras, mas não as quer gravadas em pedra.
Fonte: The Next Web
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