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UNICEF avisa: crianças estão a abraçar a IA três vezes mais depressa

Nova análise da UNICEF estima 20 milhões de menores já a usar ferramentas de IA em 10 países. A adoção dispara, a governação continua em modo sesta.

UNICEF avisa: crianças estão a abraçar a IA três vezes mais depressa

Vinte milhões de crianças em dez países já usam ferramentas de IA. E estão a adotá-las mais de três vezes mais depressa do que os adultos à volta delas. O número vem de uma nova análise da UNICEF, pensada para aterrar mesmo antes do primeiro Global Dialogue on AI Governance e estragar o clima triunfalista das conferências sobre “o potencial da IA”.

O estudo integra o programa Disrupting Harm Phase 2, conduzido pelo Office of Strategy and Evidence da UNICEF em parceria com a ECPAT International e a INTERPOL, financiado pela Safe Online. O trabalho de campo passou por Arménia, Brasil, Colômbia, República Dominicana, Jordânia, México, Montenegro, Macedónia do Norte, Paquistão e Sérvia, com cerca de 1.000 crianças utilizadoras de internet (12-17 anos) e 1.000 pais ou cuidadores em cada país. Depois, a UNICEF e a Ipsos calibraram os dados com estatísticas populacionais das Nações Unidas para chegar às estimativas globais.

Dois números resumem o choque. Mais de dois milhões de crianças, cerca de uma em cada dez, dizem recorrer à IA para pedir conselhos sobre coisas que as preocupam. De problemas emocionais a decisões do dia a dia, é ao chatbot que vão, não ao adulto. E um grupo muito maior, cerca de 13 milhões, usa ferramentas de IA para trabalhos de casa e estudo. Este lado parece mais banal, mas é aqui que a IA se cola ao quotidiano e se torna invisível, da redação “revista” pelo modelo ao resumo automático do manual.

A UNICEF não está a aplaudir esta corrida. O enquadramento é frio: crianças estão mais expostas a sistemas de IA, aos seus modelos de negócio opacos e ao uso dos seus dados pessoais, e têm muito menos poder para evitar, contestar ou sequer perceber o que está em jogo. A organização sublinha que a maior parte da governação de IA não trata menores como grupo específico, apesar de serem os primeiros a levar com os riscos e os que vão viver mais tempo com as consequências. É difícil não lembrar o aviso recente da ONU de que a janela para regular a IA de forma séria se está a fechar, enquanto as instituições continuam a passo lento.

Os miúdos também não são ingénuos. Um terço dos inquiridos diz preocupar-se com o uso da IA para burlas e desinformação. Um quarto teme ver imagens ou vídeos seus manipulados em deepfakes sexuais, tema que a UNICEF já tinha denunciado em detalhe. Aqui a ingenuidade está mais do lado de reguladores e empresas, que continuam a tratar abusos facilitados por IA como “colateral técnico” em vez de risco central. Nos EUA, isso já está a bater à porta dos tribunais, com leis de segurança online para menores em debate e processos como o da Florida contra a OpenAI.

Na lista de pedidos da UNICEF a governos e setor privado há cinco blocos: mais investigação sobre o impacto da IA no desenvolvimento infantil, leis mais duras contra exploração sexual facilitada por tecnologia, segurança e transparência incorporadas por design, educação digital realista e participação ativa de crianças na definição de regras. Nada de exotérico. É basicamente aplicar às ferramentas de IA o mesmo princípio que aceitamos para brinquedos físicos ou cadeirinhas de automóvel: primeiro segurança, depois inovação. Enquanto a IA entra em casa pelas mãos dos filhos, tratar isto como nota de rodapé regulatória é um luxo que a próxima geração não vai achar graça nenhuma.

Fonte: The Next Web

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