CIêNCIA

Um fundo de quatro pessoas vale mais que o plano espacial da UE

A Vy Capital comprou 3,4% da SpaceX, hoje avaliados em 40 mil milhões de dólares. Sozinha, vale duas vezes e meia o programa europeu que quer escapar ao Starlink.

Um fundo de quatro pessoas vale mais que o plano espacial da UE

Enquanto Bruxelas ainda discute consórcios e cláusulas de soberania, um fundo com equipa de investimento de quatro pessoas em Dubai sentou-se numa fatia de 3,4% da SpaceX. Chama-se Vy Capital e a participação vale cerca de 40 mil milhões de dólares, segundo o Financial Times. Traduzindo para euros, estamos a falar de qualquer coisa como ~36,8 mil milhões de euros. Tudo isto com muito menos reuniões que a Comissão Europeia.

A Vy Capital é o quinto maior accionista da SpaceX, acima de nomes como Sequoia Capital ou Andreessen Horowitz. Entrou em 2016, quando a SpaceX valia cerca de 15 mil milhões de dólares, e foi reforçando a posição até se tornar a peça central de um portefólio que passou de 27 para 50 mil milhões de dólares em activos sob gestão. Pelo caminho, ainda meteu dinheiro na Boring Company, na Neuralink e no financiamento da compra do Twitter por Elon Musk. É o investidor discreto que preferiu apostar no cavalo mais rápido em vez de desenhar o hipódromo.

Do outro lado do Atlântico, a Europa está a tentar construir o seu antídoto para o Starlink: o programa IRIS2. Orçamento total, 15,6 mil milhões de euros para uma constelação de 348 satélites, primeiros lançamentos previstos para 2029, serviço em 2030. Ou seja, um único investidor privado tem hoje em papel cerca de duas vezes e meia o valor de todo o plano europeu de comunicações seguras por satélite. Não é uma comparação perfeita, uma participação é um preço de mercado e um programa é um plano de capital, mas a assimetria é demasiado grande para ser ignorada.

A SpaceX estreou-se no Nasdaq em junho com uma valorização de cerca de 1,77 biliões de dólares, com Musk a manter o controlo de voto. Quem não entrou antes da bolsa, perdeu o comboio das maiores mais-valias. As instituições europeias, mesmo que quisessem, já não podiam juntar-se à posição da Vy Capital, que fechou a porta a novo dinheiro externo antes do IPO. O acesso agora é em mercado público, numa empresa onde o risco pioneiro já foi pago e recompensado por capital privado. Para a Europa, sobra a alternativa: tentar criar os seus próprios SpaceX, como se começa a ver na nova vaga de operadores privados europeus, de que a Isar Aerospace é o exemplo mais visível.

Bruxelas não está parada. O plano para reservar dois terços da banda de 2 GHz para empresas registadas na UE mostra que a União percebeu que o espectro é uma alavanca tão séria como o dinheiro. Mas é uma alavanca diferente. Regular frequências não substitui décadas de investimento continuado em indústria espacial e não resolve o atraso de calendário, especialmente quando o concorrente já vende serviços de banda larga via satélite em Portugal e no resto da Europa há anos.

Alexander Tamas, o homem ao leme da Vy Capital, diz aos investidores que a SpaceX pode passar os 10 biliões de dólares em cinco a sete anos. Nessa altura, se tudo correr como planeado, a constelação europeia ainda estará a ser lançada. O contraste resume bem o dilema europeu: ou se aprende a pôr dinheiro cedo em projectos de risco alto, ou continuaremos a celebrar foguetões de consolação enquanto o grosso do valor se concentra em meia dúzia de fundos discretos em Dubai e afins. Para já, a Europa está a pagar para entrar em órbita num jogo em que outros já estão a fazer turismo espacial.

Fonte: The Next Web

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