Alice & Bob e CEA querem um CUDA-Q europeu para computação quântica
Franceses ligam a plataforma Qaptiva a hardware quântico e assumem a ambição: fazer frente ao domínio Nvidia no software que junta bits clássicos e qubits.
Franceses ligam a plataforma Qaptiva a hardware quântico e assumem a ambição: fazer frente ao domínio Nvidia no software que junta bits clássicos e qubits.
A Nvidia não domina só placas gráficas. Domina o software que manda nelas. No quântico está a tentar repetir o truque com o CUDA-Q, e é precisamente aí que a França decidiu traçar uma linha: o organismo público CEA (Commissariat à l’énergie atomique et aux énergies alternatives) e a startup parisiense Alice & Bob vão trabalhar em conjunto para criar uma pilha de software quântico-supercomputador que seja alternativa europeia.
O alvo imediato é a Qaptiva, plataforma de aplicações quânticas criada pela Bull, hoje parte da Atos. A ideia é simples na superfície e complicada em tudo o resto: ligar o software da Alice & Bob ao Qaptiva para que programadores possam escrever um código uma vez e correr esse trabalho em diferentes máquinas quânticas, repartindo a carga entre hardware clássico e quântico. Na prática, é tentar dar ao quântico o mesmo tipo de camada de abstração que o CUDA (Compute Unified Device Architecture) deu ao GPU.
Há aqui um subtexto político óbvio. Líderes das duas entidades admitiram à Reuters que querem que a Qaptiva seja concorrente direta do CUDA-Q. Não é só orgulho nacional, é dependência estratégica: se toda a computação quântica de alto desempenho na Europa tiver de falar CUDA-Q para escalar em supercomputadores, o centro de gravidade volta a ficar no Vale do Silício, mesmo quando o hardware é europeu. Para um bloco que anda a escrever leis como o AI Act a pensar em autonomia tecnológica, entregar o cérebro do quântico à Nvidia seria um contrassenso.
O plano arranca por uma área específica: física de muitos corpos, a parte da física que estuda grandes números de partículas que interagem entre si, crítica para novos materiais e química avançada. É terreno clássico para HPC, e um bom teste para ver se esta integração quântico+clássico consegue algo mais do que se obtém só com supercomputadores. A ambição é chegar a algoritmos pensados de raiz para computadores quânticos com tolerância a falhas, que o consórcio acredita começar a ver por volta de 2030.
A Alice & Bob traz para a mesa a sua abordagem de cat qubits, qubits desenhados para suprimir um dos dois grandes tipos de erro quântico. Em teoria isso corta drasticamente o número de qubits físicos necessários para corrigir erros, a empresa fala em reduções até 200 vezes. Já mostrou o sistema Helium em junho e tem investimento do braço NVentures da própria Nvidia. A ironia é óbvia: quem ajuda a financiar o hardware francês é o mesmo gigante que estes querem contrariar do lado do software, algo que já se viu noutros segmentos onde a Nvidia prefere estar em todas as mesas ao mesmo tempo.
O computador quântico da Alice & Bob deverá ser instalado nas instalações do CEA em 2027, juntando-se às máquinas das também francesas Quandela e Pasqal. Junta-se assim mais uma peça à tentativa europeia de não ficar só a consumir APIs alheias. Há poucos meses, a Fujitsu abriu o OpenQARP como espécie de LEGO para código quântico. Agora a França puxa o fio do HPC. Falta saber se estes blocos se vão encaixar num verdadeiro stack europeu ou se cada país anda a montar o seu set de LEGO em paralelo, sem instruções comuns.
Fonte: The Next Web
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