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UE avisa Big Tech: data centers de IA verdes ou fora da Europa

Bruxelas quer a corrida à IA, mas não à custa da rede eléctrica europeia. Quem quiser lucrar com data centers na UE terá de provar que não é mais um peso morto climático.

UE avisa Big Tech: data centers de IA verdes ou fora da Europa

Dan Jørgensen, comissário europeu da Energia, não andou com paninhos quentes: as grandes tecnológicas que quiserem montar data centers de IA na Europa só entram se jogarem pelas regras climáticas da União. Em entrevista ao Politico, o dinamarquês foi explícito, as empresas têm de mostrar alinhamento com os objectivos de energia, clima e ambiente da UE. Traduzindo, mais renováveis e nuclear, menos fósseis, e um plano sério para aproveitar o calor absurdo que estes centros despejam para a atmosfera.

Jørgensen lembra que, se a Europa usasse apenas metade do calor desperdiçado hoje, chegava para aquecer 4 milhões de casas europeias. Em vez disso, a maior parte é literalmente soprada para o ar. O comissário chama-lhe “inaceitável”. E não é figura de estilo. A IA está a multiplicar a procura de capacidade de computação, e com ela o consumo eléctrico. O Instituto de Kiel projeta que os data centers da UE possam chegar aos 168 terawatt-hora por ano até 2030, o equivalente a todo o consumo anual da Polónia. Não é um detalhe técnico, é uma nova carga pesada em redes que já andam sob stress.

Quem quiser um aviso prévio do que pode correr mal olha para a Irlanda. Os data centers já consomem cerca de 22% da electricidade do país, a maior fatia per capita do mundo. Um relatório de organizações ambientalistas calculou que a expansão deste sector somou cerca de 715 milhões de euros às facturas das famílias entre 2015 e 2023, mais 360€ por agregado em oito anos. Dinamarca foi pelo mesmo caminho mas puxou o travão antes, suspendeu novas ligações à rede depois de a procura ligada à IA começar a esgotar a oferta de energia limpa.

É este cenário que Jørgensen quer evitar no resto da Europa. Ele avisa que, se o sector não se integrar nos sistemas energéticos locais, com contratos de longo prazo para renováveis, uso de nuclear onde exista e reaproveitamento de calor para redes de aquecimento urbano, o próximo passo é reacção política dura. E reacção política dura, na UE, costuma significar regras que as Big Tech não controlam. Que o diga quem acompanha o debate em torno dos data centers noutros continentes, onde o risco deixou de ser só ambiental para passar a ser também geopolítico.

Bruxelas prepara um rótulo de sustentabilidade obrigatório para data centers, com métricas de eficiência energética, consumo de água, percentagem de energia limpa e recuperação de calor. A ideia era simples, se queres operar aqui, mostras a fatura ambiental de forma transparente. Mas a proposta ficou em pausa depois de críticas fortes da indústria e de vários governos. O ponto mais explosivo foi a definição de energia “limpa”, o rascunho da Comissão só contava renováveis e deixava de fora o nuclear, apesar das emissões quase nulas de carbono. Para países como França, e para operadores que planeiam apostar em nuclear de nova geração, isto é um não-negócio.

A UE está a tentar a quadratura do círculo, quer captação de investimento em IA, quer segurança energética, quer metas climáticas. O recado de Jørgensen é que os data centers não podem ser tratados como fábricas abstractas na nuvem. São infra-estruturas físicas, pesadas, que mexem com o preço da luz de quem está em Lisboa, Porto ou Faro. Se a Big Tech vier com o discurso verde habitual mas não trouxer contratos de energia limpa, sistemas de arrefecimento eficientes e planos concretos para usar o calor em vez de o deitar fora, o comissário diz que a porta europeia fecha. E, desta vez, parece menos um bluff político e mais um aviso prévio de regulação à séria.

Fonte: The Next Web

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