Uma empresa portuguesa a ensinar crianças a programar na Europa inteira costuma aparecer primeiro na imprensa estrangeira e só depois entra no radar cá dentro. A Ubbu, que a Euronews foi descobrir, é um desses casos: uma plataforma feita em Portugal que leva código a miúdos do ensino básico, embrulhado em jogos e desafios, e já está presente em vários sistemas de ensino lá fora.
A ideia é simples, e por isso funciona: usar jogos online com narrativa e objetivos claros para introduzir lógica, sequências, ciclos e noções de ciência e sustentabilidade, sem começar pela sintaxe de uma linguagem. Os alunos arrastam blocos, testam, falham, corrigem. Os professores seguem planos de aula estruturados e relatórios que lhes dizem quem está perdido e quem está a despachar os níveis em modo automático. Tudo pensado para caber numa aula de 45 minutos, com computadores baratos e internet escolar pouco fiável.
Ao contrário de muitas plataformas estrangeiras que tratam a escola como canal de venda, a Ubbu assumiu desde cedo que o cliente é o sistema educativo. Trabalha com ministérios e municípios, integra-se em currículos oficiais e tenta evitar o clássico cenário de “mais uma password” para o professor gerir. Lá fora essa conversa tem resultado: o modelo está a ser usado em países onde a literacia digital é vista como parte da infraestrutura, ao nível da água canalizada. Em Portugal, continua muitas vezes dependente de projetos-piloto, vontade de diretores e um ou outro programa financiado por fundos europeus.
É aqui que a história fica menos bonita. O discurso político sobre competências digitais é abundante, mas o ensino básico continua sobrecarregado com programas antigos e burocracia nova. Ferramentas como a Ubbu aparecem como complemento voluntarista, quando deviam ser tratadas como manual escolar. Se o país tem uma plataforma local, alinhada com o currículo e testada em vários contextos internacionais, a pergunta não é se faz sentido usá-la, é porque é que ainda não é obrigatória a certa altura do percurso de todos os alunos.
Há outro ponto que a reportagem da Euronews sublinha bem, mesmo sem o dizer de forma direta: aprender código cedo não serve para transformar todos em programadores, serve para que quem amanhã decidir desenhar jogos, lançar foguetes ou simplesmente não ser enganado por um “formulário” suspeito online tenha um vocabulário mínimo para perceber o que está a acontecer. O código aqui é menos profissão, mais literacia. E literacia, em 2026, não é opcional.
Portugal gosta de se vender como país de startups e talento tecnológico, mas continua a tratar a programação nas escolas como atividade extracurricular simpática. Enquanto isso, uma solução nascida cá vai consolidando posição em salas de aula estrangeiras. Se a Ubbu se tornar um caso de sucesso global antes de ser assumida em pleno pelo ensino público português, não será surpresa. Será só mais um exemplo de como o país é rápido a bater palmas à exportação e lento a pôr as próprias crianças a jogar no mesmo nível.
Fonte: Euronews
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