CIêNCIA

Startups de baterias nos EUA rendem-se à Defesa para sobreviver

Cortes nos apoios aos carros eléctricos nos EUA empurraram as startups de baterias para os contratos militares. É um desvio táctico que diz muito sobre a política energética americana.

Startups de baterias nos EUA rendem-se à Defesa para sobreviver

Meio bilião de dólares em subsídios públicos compra muita flexibilidade ideológica. Nos EUA, depois de a tal One Big Beautiful Bill ter esvaziado incentivos para baterias e veículos eléctricos, o Departamento de Energia apareceu agora com 500 milhões de dólares, não para salvar directamente o mercado de carros eléctricos, mas para reforçar a cadeia de abastecimento de baterias em nome da segurança nacional.

O enquadramento é claro: reduzir dependência de matérias-primas e componentes estrangeiros, blindar a Defesa e manter a “energia dominante” americana. A prática também: uma fatia relevante deste dinheiro vai para startups que estavam a ver o chão fugir-lhes depois do recuo político nos apoios à mobilidade eléctrica. Se os carros perderam prioridade em Washington, drones, torpedos, rádios de infantaria e caças servem agora como justificação orçamental.

A Coreshell, que desenvolve materiais de ânodo em silício metalúrgico para baterias de iões de lítio, encaixa 50 milhões de dólares para escalar produção. Trouxe para o capital a ADS Ventures, ligada a um fornecedor de Defesa e a outro de sistemas autónomos. Nada subtil. Lilac Solutions recebe 100 milhões para montar uma unidade de processamento no Great Salt Lake, no Utah, com meta de 5.000 toneladas anuais de carbonato de lítio até 2028. A Nth Cycle capta outros 100 milhões para refinar “black mass”, a mistura de restos de baterias recicladas, e dali extrair compostos de lítio e níquel reutilizáveis.

Do lado das empresas, ninguém faz de conta. A própria CEO da Nth Cycle, Megan O’Connor, admite que há “motores de procura claros no sector da Defesa”, embora o automóvel continue no horizonte. O contraste de escala continua brutal. Em 2021, a agência de logística da Defesa americana gastava cerca de 200 milhões de dólares por ano em baterias. Já este ano a indústria automóvel nos EUA deverá investir perto de 18 mil milhões de dólares em capacidade de fabrico de baterias. O militar ajuda a tapar o buraco político, não substitui o mercado civil.

Para Portugal e para a Europa, isto é um sinal de como a política industrial se torce ao sabor do ciclo eleitoral. Bruxelas também fala de segurança e matérias-primas críticas, mas tem mantido a mobilidade eléctrica como objectivo central. Se os EUA usam a Defesa como bóia para startups de baterias, a UE arrisca-se a ficar dependente dessa volatilidade se não acelerar a sua própria cadeia, da mineração ao reciclo. Para quem está a montar fábricas em território europeu, ver Washington recuar nos carros eléctricos enquanto despeja dinheiro em nome da Defesa é um lembrete simples: contar com os EUA como âncora estável para esta transição é optimismo a mais.

No meio deste ziguezague, há um reconhecimento implícito em Washington que interessa reter: mesmo uma administração hostil aos carros eléctricos já percebeu que o futuro é eléctrico, ainda que adiado e reembrulhado em farda camuflada. As baterias não saem de cena, apenas mudam de uniforme.

Fonte: TechCrunch

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