CIêNCIA

Startup cria tecidos de rim e fígado em órbita através de “bioimpressão”

A Auxilium usou a Estação Espacial Internacional para imprimir tecidos humanos em microgravidade. O objetivo imediato não são órgãos sobresselentes, mas testes de fármacos mais fiáveis.

Startup cria tecidos de rim e fígado em órbita através de “bioimpressão”

Rim e fígado impressos em 3D no espaço deixariam qualquer argumento de ficção científica a soar conservador. A Auxilium Biotechnologies, de San Diego, anunciou que bioprintou tecido humano destes dois órgãos a bordo da Estação Espacial Internacional, alegando uma estreia mundial em órbita. As amostras regressaram à Terra no mês passado, numa cápsula de carga da SpaceX, e os resultados foram agora revelados em comunicado.

O voo não se esgotou em meia dúzia de experiências fotogénicas. Na mesma missão, a impressora orbital AMP-1 da Auxilium produziu também tecido de cartilagem e 28 implantes para reparação de nervos. Segundo a empresa, é a primeira vez que uma única missão gera três tipos de tecido e que uma plataforma de fabrico multiproduto funciona em órbita. Para quem acompanhou a recente corrida a fábricas no espaço, de que faz parte a startup europeia Space Forge e o mini-laboratório de longevidade que já destacámos na Pixel, isto cheira menos a demonstração académica e mais a protótipo industrial.

A pergunta óbvia é: porquê imprimir em órbita quando existem laboratórios equipados em terra. A resposta resume-se à gravidade. Tecidos vivos macios, na Terra, tendem a abater antes de ganhar estrutura. Para contornar isso, recorre-se a andaimes e espessantes que seguram a forma, mas também introduzem variáveis indesejadas. Em microgravidade, a impressão mantém o formato enquanto as células se distribuem de forma mais uniforme. O instituto do Dr. Anthony Atala, em Wake Forest, forneceu células e modelos e sublinha precisamente essa “distribuição uniforme de células” como sinal de que há aqui algo mais do que uma curiosidade orbital.

Convém, no entanto, desinflacionar o entusiasmo: não estamos a falar de órgãos prontos para transplante. São pequenas amostras de tecido. O obstáculo de construir redes de vasos sanguíneos funcionais em estruturas espessas continua em cima da mesa e não se resolve com um bilhete para a órbita baixa. Um rim impresso para implantar num doente continua a ser um alvo a anos de distância, e a biotecnologia tem um histórico generoso de prazos optimistas que escorregam década fora.

O ganho mais próximo está noutro lado. As mesmas técnicas permitem imprimir organoides, mini-modelos de órgãos usados para testar se um composto funciona ou se é tóxico, sem recorrer a humanos ou animais. Reguladores norte-americanos querem reduzir a dependência de testes em animais e já apontaram estes modelos como alternativa desejável. Hoje, muitos destes tecidos viajam de laboratórios em terra para a órbita. Produzi-los directamente no espaço, sob demanda, encurta tempos e, em teoria, melhora a qualidade do modelo. É uma peça concreta num puzzle onde medicina de precisão, IA e fabrico orbital começam a misturar-se.

Por trás da ciência está um plano de negócio bastante lúcido. A ISS deve reformar-se por volta de 2031, com estações comerciais na fila para a substituir. A Auxilium já nomeia Vast e Starlab como parceiras e fala sem rodeios em levar impressão de tecidos para a Lua. Para já, a bioprinting orbital é ferramenta de investigação, não fábrica em série. Mas a tese é provocadora: talvez alguns tipos de produção biológica complexa sejam estruturalmente mais fáceis fora da gravidade da Terra. Se assim for, a discussão sobre “indústria espacial” deixa de ser apenas satélites e turismo, e passa a tocar directamente no modo como, daqui a uns anos, os teus medicamentos são testados e desenhados.

Fonte: The Next Web

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