CIêNCIA

Starship regressa inteira e dá à SpaceX o escudo térmico que faltava

No 13.º voo, a Starship amarou intacta no Índico e a SpaceX pôde finalmente estudar um escudo térmico sem danos. O problema agora é outro: o booster continua a falhar o regresso.

Starship regressa inteira e dá à SpaceX o escudo térmico que faltava

Num sector em que cada voo de teste parece uma explosão telegénica, a notícia desta vez é quase aborrecida: a Starship amarou no Índico inteira. Nada de destroços a boiar, nada de foguetão calcinado. Para a SpaceX, a palavra-chave no relatório de voo foi intact. E isto pesa mais do que os 20 satélites Starlink V3 que levou lá acima.

O 13.º voo da Starship descolou de Starbase, no Texas, às 17h51 de sexta-feira, depois de adiamentos e trocas de motores. Era a segunda missão dos veículos V3 e a primeira lançada depois da entrada da SpaceX em bolsa, detalhe que interessa tanto aos investidores como à engenharia. Uma hora, cinco minutos e 21 segundos depois, a nave estava a flutuar no oceano Índico, inteira, após uma reentrada controlada e uma sequência de manobras que começa a aproximar-se do guião operacional que a empresa vende para futuras missões.

O que mudou desta vez foi o escudo térmico. A Starship entrou na atmosfera, recolheu dados e fez uma manobra de banking agressiva para simular a aproximação a Starbase no regresso. Controlou a atitude com as quatro aletas, reacendeu os três motores Raptor para o flip final e assentou suavemente na água. Resultado: um escudo térmico completo, sem o puzzle habitual de azulejos partidos que a SpaceX tem estudado voo após voo. Num programa que aposta tudo na reutilização, ter imagens e medições de um escudo que sobreviveu é meio caminho andado para sair da fase de protótipo eterno. Para quem se lembra de como o vaivém espacial terminou, e do que escrevemos quando se cumpriram 15 anos desde o último Shuttle, a sensibilidade em torno de escudos térmicos não é académica.

Os 20 satélites Starlink V3 serviram sobretudo como carga de ensaio. Foram lançados, contactados via rádio e ligações laser, telemetria recebida, e depois deixados numa trajetória que deverá tê-los trazido de volta em cerca de 20 minutos. O teste que interessa para o futuro das missões orbitais foi outro: cerca de 39 minutos após a descolagem, a Starship reacendeu um único Raptor em órbita. Sem re-ignição em espaço, não há alterações de órbita, não há inserção estável, não há ida séria à Lua para a NASA. A SpaceX chamou-lhe uma “capacidade nuclear” para missões futuras, e aqui não está a exagerar muito.

Enquanto a nave acertava quase todos os objetivos, o Super Heavy teve a sua noite má. Concluiu a parte de alto empuxo da manobra de regresso com os 33 motores a trabalhar, inédito num V3, mas cortou o burn antes do previsto. Na tentativa de reacender para a queima de aterragem, só alguns motores responderam. O booster acabou com um “hard splashdown” no Golfo do México. Em testes, isto é dado, não tragédia. Mas na prática continua a ser o quadrado vazio naquela grelha de objetivos que a SpaceX insiste em mostrar em cada apresentação. Já no voo anterior, em que analisámos como a Starship V3 levava novos Starlink mas voltava a perder o Super Heavy, o padrão era claro. Continua a ser.

O passo seguinte, segundo Elon Musk, é tentar algo mais ambicioso: apanhar a própria Starship com a torre de lançamento, como já fez com boosters Falcon modificados. Capturar o estágio superior é um problema de outra liga, em precisão e em risco. Um erro de metros transforma um sucesso de reutilização em sucata cara e potencial pausa regulatória. Mesmo assim, a empresa parece disposta a queimar capital e aço ao ritmo necessário para lá chegar. Agora que já tem um escudo térmico inteiro para estudar, a fasquia técnica desloca-se, inevitavelmente, para o que consegue fazer com um booster que ainda não sabe voltar para casa como deve ser.

Fonte: The Next Web

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