Sites de deepfake sexual atacam mais de 100 políticas na Europa
Novo estudo mapeia 160 sites de pornografia IA que visam sobretudo mulheres em cargos eleitos. O alvo já não é só a privacidade, é a própria democracia.
Novo estudo mapeia 160 sites de pornografia IA que visam sobretudo mulheres em cargos eleitos. O alvo já não é só a privacidade, é a própria democracia.
Mais de 140 políticos europeus foram parar a sites de pornografia gerada por IA. Quase todos são mulheres. A contagem vem de uma análise a 160 domínios dedicada a deepfakes sexuais e outros conteúdos não consensuais, feita por Benjamin Shultz para o think tank alemão Agora Digitale Transformation. Em 5.800 deputados nacionais dos 27 países da União Europeia, pelo menos 138 mulheres e apenas 9 homens surgem referidos. A probabilidade de uma mulher deputada ser alvo deste tipo de abuso é, segundo o estudo, 33 vezes maior.
Os casos vão de vídeos explícitos a entradas em estilo base de dados, com nome, fotografia oficial, por vezes perfis de redes sociais e até secções a “avaliar” o corpo das deputadas. Ao lado, links para apps de “nudifier” que prometem despir digitalmente qualquer pessoa, ou ferramentas internas do próprio site. Em três cliques, do retrato institucional passa-se para um ficheiro sexualizado pronto a circular em chats ou redes. Mesmo quando o ficheiro ainda não existe, o gateway está montado. E não é muito diferente de o alojar diretamente.
As deputadas mais visadas são de países grandes: Alemanha, Países Baixos, Itália, França. Quanto mais alta a função, maior o risco. Suzanne Kröger, deputada holandesa do grupo Progressistas Países Baixos, diz que o fenómeno é parte de uma “tendência muito maior de ódio e intimidação online contra mulheres e mulheres na política”. Ela lembra que tem voz pública e meios para reagir, mas há “milhões de mulheres vítimas destes crimes” sem qualquer megafone. O recado é óbvio: se fores mulher e quiseres ocupar o espaço público, prepara-te para ser transformada em alvo sexual.
O ponto mais preocupante nem é tecnológico. Desde que as deepfakes surgiram em 2017, o software ficou mais acessível e convincente, mas a motivação mantém-se básica. São sobretudo homens e rapazes a produzir imagens para humilhar, intimidar ou chantagear mulheres, de deputadas a alunas de secundário. Já vimos como isto escala: há pouco tempo escrevemos sobre um homem condenado a 15 anos por extorquir mulheres com pornografia IA, um caso que nasceu no quarto de um indivíduo e acabou nos tribunais federais. O estudo agora divulgado mostra a mesma lógica, só que aplicada a quem faz leis.
O impacto não é só pessoal. Investigadores e legisladores ouvidos no trabalho avisam que este tipo de abuso “arrefece” a participação política. Afasta raparigas da ideia de se candidatarem, empurra mulheres em funções para fora da vida pública, deixa uma mancha reputacional que pode segui-las muito depois de abandonarem o parlamento. É aqui que a conversa sobre liberdade de expressão e “brincadeiras com IA” colide com a realidade: não estamos a falar de sátira, estamos a falar de uma forma digital de violência de género, dirigida a quem representa milhões de pessoas.
Do lado prático, Shultz contactou individualmente as deputadas identificadas e partilhou orientações sobre remoção de conteúdos. Os sites funcionam como negócios, com modelos de subscrição, publicidade e incentivos claros para manter o abuso a escalar. Enquanto a legislação europeia continuar lenta a classificar deepfakes sexuais como crime específico, a mensagem que passa é de permissividade. A tecnologia mudou mais depressa do que o direito, mas neste caso não é por falta de avisos, é por falta de vontade política para proteger quem, ironicamente, escreve as leis.
Fonte: Wired
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