CIêNCIA

Singapura liga rack de dados com neurónios humanos vivos em teste radical

Um rack de 20 unidades CL1 com neurónios humanos está ligado num centro de dados em Singapura. A promessa é gastar menos energia, mas os números continuam convenientemente ausentes.

Singapura liga rack de dados com neurónios humanos vivos em teste radical

Há um centro de dados em Singapura com um rack ligado onde parte da “computação” é feita por neurónios humanos vivos. Não é ficção científica, é um protótipo público da NUS Medicine, do operador DayOne e da australiana Cortical Labs. Chamam-lhe um data center biológico, mas por agora parece mais um laboratório muito caro a tentar vestir fato de infraestrutura comercial.

O hardware é um rack de 20 unidades CL1, que a Cortical Labs apresenta como os primeiros servidores biologicamente integrados a operar de forma independente. Os neurónios são crescidos a partir de células estaminais e mantidos em cultura no instituto de ciências da vida da NUS. Em teoria, a grande vantagem é energética: cérebros são absurdamente eficientes a calcular quando comparados com chips de silício. Em prática, os parceiros decidiram anunciar “eficiência” sem mostrar um único número sólido.

Os únicos dados públicos vêm das próprias especificações da Cortical Labs. Cada CL1 consome entre 850 e 1.000 watts. Multiplica por 20 e ficas com um rack a puxar até 20 kilowatts. Isto é banal num centro de dados tradicional. O que muda é onde a energia vai parar, aqui gasta-se sobretudo a manter células vivas, com incubadoras, bombas e controlo de temperatura, e não tanto em computação clássica. A suposta poupança está nos neurónios em si, não no sistema que os rodeia. É uma nuance que desaparece depressa quando o discurso é marketing para “IA verde”.

Não é a única tentação tecnológica a prometer milagres nos centros de dados sem fechar a conta da eletricidade. Já vimos propostas de fibra oca para redes mais eficientes e até pilhas de hidrogénio para alimentar racks. Aqui o desvio é mais radical, porque troca-se silício por biologia. A suíça FinalSpark, por exemplo, afirma que os seus processadores baseados em organoides cerebrais usam “um milhão de vezes menos energia” do que chips digitais. Só que, outra vez, essa comparação fala dos neurónios isolados, não do ecossistema inteiro de suporte que aparece na fatura de eletricidade.

Enquanto Singapura acena à computação biológica, a Europa segue outra via: chips neuromórficos que imitam neurónios em silício, sem necessidade de culturas celulares nem material de laboratório a funcionar 24/7. O governo neerlandês está a montar um hub de computação neuromórfica com essa lógica. É menos sexy do que um rack “vivo”, mas alinha melhor com a realidade regulatória europeia e com a operação de centros de dados que têm de funcionar anos a fio, não em ciclos de seis meses.

É aqui que entra outra fragilidade dos CL1. A própria Cortical Labs admite que o sistema de suporte mantém os neurónios viáveis durante, no máximo, meio ano. Ou seja, um calendário de manutenção que nenhum operador sério de centro de dados quer ouvir. Ainda assim, a empresa empurra o discurso para a comercialização: fala em aplicações em descoberta de fármacos, robótica humanoide, cibersegurança e detecção de fraude. Tudo áreas onde a IA já corre bem em silício puro. O número que falta é simples e teimosamente ausente: watts por tarefa útil. Enquanto isso não existir, racks de neurónios continuam mais próximos de peça de conversa em conferência do que de alternativa séria às filas de servidores que alimentam a IA nas nuvens da NOS, MEO, Vodafone ou de qualquer operador europeu.

Fonte: The Next Web

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