CIêNCIA

Sim, cocó: como as fezes podem ter acelerado a evolução animal

Novo estudo liga o aparecimento de tubos digestivos e fezes compactas ao boom da vida animal no Cambriano. A primeira grande reciclagem global pode ter sido… intestinal.

Sim, cocó: como as fezes podem ter acelerado a evolução animal

O que pôs a vida animal em modo turbo há mais de 500 milhões de anos pode não ter sido um cometa ou uma mutação milagrosa. Pode ter sido cocó a cair lentamente pela coluna de água do oceano.

Julien Kimming, paleontólogo no Karlsruhe Institute of Technology, e Russell Bicknell, paleobiólogo na Flinders University, fizeram uma coisa pouco glamorosa mas eficaz: vasculharam décadas de literatura científica à procura de cada sistema digestivo fossilizado e cada coprólito, o nome técnico para fezes fossilizadas, do período Cambriano. Depois cruzaram essa cronologia intestinal com modelos da química dos oceanos de há 540 milhões de anos e com o funcionamento das actuais cadeias de nutrientes marinhos.

A ideia central é simples e um pouco desconfortável: quando surgem animais com tubos digestivos completos, surgem também pellets fecais compactos que não se desfazem logo à superfície. Esses pequenos cilindros orgânicos começam a afundar, arrastando carbono, azoto, fósforo e ferro para zonas mais profundas. Em termos de oceanografia moderna, isto é uma peça-chave da chamada bomba biológica, o sistema que move nutrientes em profundidade e torna habitáveis camadas de água que, de outra forma, seriam quase desertas.

Antes do Cambriano, durante o Ediacarano, o fundo do mar tinha menos oxigénio e menos nutrientes acessíveis. Havia vida, mas relativamente simples e limitada em tamanho. Com o início da “chuva” de fezes, argumentam Kimming e Bicknell, o aporte de matéria orgânica às profundezas aumenta, alimenta microrganismos e, por arrasto, suporta animais maiores e ecossistemas mais complexos. Alguns coprólitos com 520 a 506 milhões de anos, vindos da Austrália, Gronelândia, China ou Nevada, preservam restos de trilobites e conchas, prova directa de cadeias alimentares já bastante ativas nessa altura.

O estudo não é apenas uma colecção bizarra de fotografias de fósseis com formato suspeito. Os autores tentam encaixar a evolução de sistemas digestivos nos modelos de circulação de nutrientes. Conclusão provisória: os pellets fecais aparecem no registo fóssil precisamente quando os modelos químicos indicam que o fundo dos oceanos começa a receber mais carbono e outros elementos-chave. Não é uma prova absoluta de causa e efeito, mas a coincidência temporal é difícil de ignorar.

Há espaço para cepticismo saudável. O Cambriano foi tudo menos simples, com alterações nos níveis de oxigénio, tectónica activa e possíveis mudanças climáticas a jogar em simultâneo. Culpar ou elogiar o cocó por toda a “explosão” de diversidade é redutor. Mas este trabalho lembra uma coisa que a biologia tende a esquecer quando se entusiasma com genomas e cérebros: sem reciclagem eficiente de nutrientes, não há megafauna, nem então nem agora. A primeira grande infra-estrutura global de fertilização do planeta pode muito bem ter sido alimentada a fezes, grão a grão, durante milhões de anos.

Fonte: Ars Technica

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