Red Hat promete suporte RHEL sem fim, mas a conta não fecha
Novo add-on prolonga o suporte de versões antigas de RHEL sem data limite. Para algumas empresas é salvação, para outras é o bilhete de primeira classe para o lock-in eterno.
Novo add-on prolonga o suporte de versões antigas de RHEL sem data limite. Para algumas empresas é salvação, para outras é o bilhete de primeira classe para o lock-in eterno.
A Red Hat decidiu oficializar aquilo que muita infra-estrutura já faz na prática: nunca morrer. O novo add-on chama-se Long-Life e é, na sua própria descrição, uma espécie de “RHEL para sempre”, sem data de fim de suporte pré-definida.
Na prática, este Long-Life Add-On promete manter versões antigas, tanto major como minor, de Red Hat Enterprise Linux seguras e estáveis enquanto o cliente continuar a pagar. Inclui patches críticos, correções urgentes de bugs e suporte técnico 24/7. Ou seja, o pacote clássico de suporte corporativo, mas estendido para lá dos já longos 14 anos de suporte que a Red Hat oferece hoje com o Extended Life Cycle Premium.
O argumento oficial é previsível e não é absurdo. Muita gente na área de sistemas em Portugal conhece aplicações core que ainda mexem dinheiro, processos industriais ou serviços públicos em cima de software que já devia estar num museu. Sistemas operativos chegam ao fim de vida muito antes de essas aplicações poderem ser substituídas, seja por dependência de hardware caro, seja por requisitos regulatórios. A Red Hat vende este add-on como forma de alinhar ciclos de software com investimentos em hardware a 15 ou 20 anos e com regulações que não querem surpresas.
Há casos em que isto é quase serviço público. O exemplo clássico são infra-estruturas críticas, como centrais nucleares ou sistemas industriais de alto risco, onde cada alteração é uma dor de cabeça certificada e auditada. Nesses contextos, a alternativa costuma ser bem pior: ou se corre sistemas sem patches há uma década, ou se paga a um integrador obscuro por “manutenção” de código-fóssil. Do ponto de vista de segurança, ter a Red Hat oficialmente responsável pelos patches é, no mínimo, mais honesto.
O problema é o resto. Um programa chamado “RHEL para sempre” também é uma máquina de lock-in. Quanto mais anos ficas numa versão morta para o resto do mundo, mais difícil e caro se torna sair. A história da tecnologia está cheia de exemplos de fornecedores que, quando percebem que são o único suporte possível de um parque legado, começam a puxar pelos preços. O texto original fala do “golden screwdriver”, aquela deslocação que custa quatro dígitos só para alguém aparecer e tocar na máquina. Não é difícil imaginar versões modernas disso com contratos de suporte de décadas, cláusulas opacas e margens pornográficas.
A própria IBM e a Red Hat têm mostrado que sabem ler muito bem este espaço cinzento entre open source e contrato fechado, como se viu quando começaram a usar IA para tapar buracos em pacotes abandonados e a reforçar a narrativa de que o código pode ser aberto, mas o suporte sério é outro campeonato, algo que já analisámos quando falaram em usar IA para manter o open source vivo. O Long-Life encaixa perfeitamente nessa estratégia: o Linux continua “livre”, mas a tua infra sujeita-se a um subscrição perpétua.
Para uma organização portuguesa, pública ou privada, isto devia vir com um aviso em letras grandes: só se assina algo assim com um plano de saída escrito ao lado. Long-Life é útil onde mudar é quase impossível. Em todo o resto, é um incentivo subtil para adiar decisões difíceis até ao dia em que trocar de sistema operativo custa mais do que manter o fóssil respirado a dinheiro.
Fonte: The Register
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