Rassvet, o “Starlink” russo, arranca com falhas e muita opacidade
Primeiras análises aos 32 satélites Rassvet apontam falhas claras e um desfasamento grande face ao ritmo de SpaceX. Moscovo quer uma megaconstelação, mas falta-lhe prática e tempo.
Primeiras análises aos 32 satélites Rassvet apontam falhas claras e um desfasamento grande face ao ritmo de SpaceX. Moscovo quer uma megaconstelação, mas falta-lhe prática e tempo.
O plano russo para ter um “Starlink próprio” está a tropeçar logo à saída da plataforma. O programa Rassvet, apresentado como resposta de Moscovo à constelação da SpaceX, já colocou 32 satélites em órbita em dois lançamentos de foguetões Soyuz, em março e julho. Em teoria, isto seria cerca de 10% dos 300 satélites que a Rússia quer ter operacionais até ao fim de 2027, com uma ambição declarada de chegar aos 924 até 2035. Na prática, os números contam outra história.
Os satélites foram largados em órbitas mais baixas do que o planeado e deveriam usar motores de plasma para subir até cerca de 800 km de altitude. Até agora, nenhum dos 32 chegou lá acima. Segundo o Institute for the Study of War e o astrónomo Jonathan McDowell, o melhor que conseguiram foi estabilizar uma dúzia de satélites da primeira leva à volta dos 500 km, com outro a caminho. Um caiu de volta à atmosfera em junho sem praticamente manobrar. Dois ficaram “parados” há meses, o que sugere problemas graves.
A segunda fornada não correu muito melhor. Pelo menos dois satélites nunca chegaram a manobrar e caminham para a reentrada, descreve o jornalista Anatoly Zak, que acompanha de perto o sector espacial russo. Onze dos 16 lançados em julho ainda estavam a subir de forma visível em agosto, mas três parecem ter desistido a meio. Contas conservadoras: pelo menos três falhas francas em 32 satélites, possivelmente mais, num sistema que precisa de centenas para fazer sentido militar e comercial.
Antes de se apontar o dedo só a Moscovo, convém lembrar que constelações em massa são um desporto violento. Os primeiros 60 protótipos Starlink tiveram uma taxa de falhas de 13% ao longo do tempo. A SpaceX afinou o processo, baixou para cerca de 3% nos 420 seguintes e hoje, nos Starlink v2, McDowell estima algo como 0,01% de falhas. O Pentágono, com a sua própria constelação SDA para dados militares, também teve problemas térmicos e de propulsão e atrasos na subida de órbita. A diferença é que os norte‑americanos já estão na fase de optimização. A Rússia está ainda a aprender a fazer produção em série, depois de décadas a montar “uns poucos” satélites por ano.
Há variáveis que só Moscovo conhece. É possível que tenham simplesmente mudado de ideia e decidido operar mais baixo, por volta dos 500 km, à semelhança dos Starlink, para reduzir latência a utilizadores no terreno, em troca de precisar de mais satélites para cobrir o globo. Também podem estar a usar altitudes diferentes para deixar que os planos orbitais se alinhem ao longo de meses. Sem transparência técnica, tudo isto fica no território da especulação informada.
O que não é especulativo é isto: montar uma megaconstelação exige uma cadência industrial e um controlo de qualidade que a Rússia nunca mostrou ter. E, ao contrário do contrato da NASA com a Blue Origin para criar uma rede de telecomunicações em Marte, aqui não há um cliente externo paciente a pagar o desenvolvimento. Há um Estado em guerra a correr atrás de uma vantagem que outros conquistaram há anos. O relógio orbital não pára e, para já, o Rassvet parece mais um nascer do sol adiado do que uma alvorada tecnológica russa.
Fonte: Ars Technica
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