Perseverance encontra rocha em Marte cheia de carbono à superfície
O rover detectou carbono macromolecular exposto numa rocha em Jezero. Na Terra isto costuma cheirar a biologia, em Marte a história é bem menos óbvia.
O rover detectou carbono macromolecular exposto numa rocha em Jezero. Na Terra isto costuma cheirar a biologia, em Marte a história é bem menos óbvia.
Em Marte, a NASA acaba de tropeçar num daqueles achados que fazem os geólogos sorrir e os biólogos suarem. O rover Perseverance encontrou carbono orgânico complexo não escondido no interior da rocha, mas exposto à superfície, numa zona chamada Bright Angel, na margem do antigo canal fluvial Neretva Vallis, na cratera Jezero.
Até aqui, o Perseverance vinha a detectar compostos orgânicos sobretudo depois de perfurar ou desgastar rochas. Agora, o espectrómetro SHERLOC (Scanning Habitable Environments with Raman and Luminescence for Organics and Chemicals), montado no braço do rover, registou uma assinatura de carbono macromolecular directamente na superfície de três alvos: Cheyava Falls, Apollo Temple e Walhalla Glades. Um quarto alvo, Steamboat Mountain, serviu de controlo e não mostrou nada do género. Esta assinatura, a tal G-band “grafítica”, lembra bastante o kerogénio terrestre, o material orgânico fossilizado que, na Terra, é praticamente sinónimo de origem biológica.
Os investigadores recusaram-se a usar a palavra kerogénio com prudência quase jurídica. Em Marte, assumir que carbono complexo significa vida antiga é um atalho tentador e perigoso. Preferem falar em “carbono macromolecular”, um termo deliberadamente agnóstico: admite que tanto pode vir de micróbios fossilizados como de processos puramente químicos, choques de meteoritos ou até reacções exotéricas na atmosfera marciana. Depois de vários anúncios entusiasmados de “sinais promissores” na astrobiologia marciana, a NASA parece ter aprendido a lição da contenção.
Antes de festejar, a equipa fez o trabalho chato: descartar erros. SHERLOC sofreu uma avaria na tampa de protecção que obrigou a mudar o modo de operação, por isso os cientistas confirmaram primeiro se a tal G-band não vinha de reflexos na própria janela do instrumento. Testaram componentes gémeos em laboratório, apontaram o laser para zonas vazias e para alvos de calibração. O controlo em Steamboat Mountain fechou o círculo: nada de G-band ali, só nas rochas “boas”. Também afastaram a hipótese de contaminação vinda da Terra, lembrando que a broca foi esterilizada e já perfurou outras rochas em Jezero sem nunca produzir um sinal tão forte, e que um dos alvos com carbono, Cheyava Falls, nem sequer foi tocado pela broca, só levou uma “soprada” de azoto.
Quando a equipa passou do “será artefacto?” para “o que é isto afinal?”, a química das vizinhanças começou a sugerir uma história mais longa. Em Apollo Temple, o carbono aparece associado a carbonatos e sulfatos, minerais típicos de água a circular e a precipitar sais em rocha mais antiga. Em Walhalla Glades, o carbono está embebido em sedimentos ricos em silicatos. A interpretação de Ashley Murphy, autora principal do estudo, vai para um cenário em duas etapas: primeiro, matéria orgânica incorporada em lamas de um antigo lago, depois alterada e “cozinhada” ao longo de milhões de anos, e mais tarde água subterrânea a infiltrar-se na rocha enterrada, deixando novos minerais e talvez mais carbono para trás.
Para quem segue a missão, isto encaixa num padrão mais amplo: Jezero continua a acumular indícios de ambientes antigos com água estável e química amigável à vida, como já tínhamos visto noutros resultados do Perseverance sobre possíveis sinais de vida antiga. A diferença aqui é a “superficialidade” do carbono. Quanto mais perto da superfície, maior a dose de radiação e o risco de destruição de moléculas complexas. Encontrar algo tão resistente logo à vista é quase provocação geológica. Mas o veredicto sobre se isto é biologia ou apenas boa química planetária não vai sair de Jezero. Vai sair, se tudo correr bem, quando algum dia estes núcleos de rocha chegarem a um laboratório na Terra.
Fonte: Ars Technica
Comentários · 0