CIêNCIA

Pela primeira vez, a maioria da IT empresarial já está fora de casa

Os dados do Uptime Institute confirmam o que muitos CIOs já sentiam: corre-se mais trabalho em data centers de terceiros do que em instalações próprias, com racks cada vez mais famintos de energia.

Pela primeira vez, a maioria da IT empresarial já está fora de casa

Para quem ainda achava que “on-prem” era a norma e a cloud a exceção, os números acabam de oficializar o contrário. O último Global Data Center Survey 2026 do Uptime Institute mostra que, pela primeira vez, a maioria das cargas de trabalho de IT empresarial já corre fora das instalações próprias.

Entre mais de 800 responsáveis de data centers inquiridos, sobretudo na América do Norte e Europa, 46 por cento dos workloads estão hoje em instalações de terceiros, contra 44 por cento em “server farms” detidas pelas próprias empresas. Os restantes 10 por cento vivem em salas de IT e armários de servidores espalhados por escritórios. Na prática, o data center próprio deixou de ser o centro de gravidade. Continua a pesar, mas já não manda sozinho.

O Uptime projeta que em 2028 a fatia de workloads em centros de dados próprios fique estagnada, enquanto a dos terceiros sobe para 48 por cento, à custa precisamente dessas salas e armários improvisados. Isto casa bem com o que se vê em Portugal e na Europa: menos vontade de manter ilhas técnicas em cada edifício, mais contratos com clouds públicas, operadores de colocation e plataformas geridas. Menos tijolo, mais fatura mensal. A narrativa do “regresso ao on-prem” por causa dos custos da cloud existe, mas continua claramente minoritária.

Ao mesmo tempo, o consumo por rack dispara. O valor médio das densidades mais típicas passou agora os 11 kW por rack. O número é puxado por um pequeno grupo de instalações de alta densidade, com racks acima dos 30 kW, alguns a ultrapassar os 50 kW e a entrar na zona dos 100 kW para servir clusters de GPUs e infraestrutura de IA. Sem esses outliers, a média ficaria nos 7,8 kW, praticamente igual aos 7,5 kW de 2025. Ou seja, o grosso do mercado ainda está relativamente “moderado”, mas a cauda pesada da IA começa a distorcer a curva.

Este aumento não é gratuito. Racks mais densos pedem refrigeração líquida, redes elétricas reforçadas e, inevitavelmente, mais energia. Num contexto em que reguladores europeus olham de frente para emissões e ruído dos data centers, e em que casos como o de Nova Iorque a travar novas instalações fazem manchetes, a equação fica mais tensa. Em Portugal, onde se fala de atrair grandes campi de IA e já se assinam acordos como o da Microsoft com a Mistral para infraestrutura de IA na Europa, convém lembrar que cada GPU brilhante traz um contrato de eletricidade bem menos glamoroso.

O relatório também aponta para ciclos de renovação tecnológica mais agressivos, abaixo dos quatro anos, o oposto do que gigantes como Microsoft, Google ou Meta disseram querer fazer, ao alongar a vida dos servidores para seis ou sete anos para aliviar a depreciação. Se esta tendência se confirmar fora da amostra do Uptime, prepara-te para mais capex, mais e-waste e mais pressão sobre cadeias de fornecimento. A IT empresarial está a desmaterializar-se em relação ao edifício, mas materializa-se com mais força nas contas de energia e nas folhas de cálculo dos operadores de data center. Ninguém quer ser dono do prédio, toda a gente quer mais watts por rack.

Fonte: The Register

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