Passwords em Google Docs públicos foram parar ao Google Search
Um contratado guardou credenciais de servidor num Google Docs aberto ao mundo. O motor de busca da própria Google tratou do resto.
Um contratado guardou credenciais de servidor num Google Docs aberto ao mundo. O motor de busca da própria Google tratou do resto.
Um programador da Pageloot resolveu guardar credenciais de um servidor de testes num Google Docs com partilha “para quem tiver o link”. A certa altura, outro colega escreve o domínio da empresa na pesquisa e o autocomplete despeja ali, à frente de toda a gente, um hostname de staging seguido de uma string de credenciais. O pesadelo de segurança não estava escondido num fórum obscuro, estava simpaticamente indexado pelo próprio Google Search.
O caso foi contado por Siim Kostabi, cofundador da Pageloot, que faz serviços de códigos QR para empresas. A empresa tinha contratado um developer externo para integrações de API no back-end. Em vez de usar um gestor de passwords, o programador decidiu que um Google Docs era um bom cofre digital. Pior, deixou o documento acessível a qualquer pessoa com o link, que por sua vez era suficientemente “legível” para o crawler do Google o indexar. Resultado: as credenciais do servidor de staging passaram a sugestão automática de pesquisa.
Quando a equipa percebeu o que se estava a passar, cortou imediatamente o acesso do contratado, rodou todas as passwords expostas e criou uma regra explícita: nada de guardar credenciais em Google Docs, Slack, Notion ou outras ferramentas de colaboração. Isto devia ser óbvio em 2026, mas episódios destes continuam a acontecer, em empresas que até vivem da tecnologia. E não é um problema exclusivo de um serviço: o erro está em tratar documentos partilhados como cofres privados. Não são. Para quem anda entretido a experimentar IA no Workspace, vale a pena também rever as definições de partilha e, se for o caso, seguir guias práticos como desligar o Gemini no Gmail e no Google Docs para perceber melhor o que está exposto.
O pior é que esta história nem foi a única dor de cabeça vinda do mesmo universo. Noutro caso relatado por Kostabi, um cliente da Pageloot, um retalhista de média dimensão, viu de um dia para o outro os seus códigos QR a apontarem para o site de um concorrente. Investigação feita, descobriu-se que um ex-funcionário, já fora da empresa, mantinha credenciais activas. Com esse acesso, reconfigurou todos os URLs, desviando tráfego e clientes. Não houve magia negra, só ausência de offboarding e de controlo básico de acessos.
O padrão é demasiado familiar. Equipas que se preocupam com ataques sofisticados, mas deixam passwords em documentos partilhados e contas de ex-colaboradores a marinar durante meses. Depois admiram-se de ver dados em fuga ou acessos abusivos, como já se viu noutras histórias recentes de falhas de segurança corporativa. As ferramentas modernas até ajudam, de gestores de passwords a sistemas de single sign-on, sem falar em protecções no browser como as que o Chrome anda a testar contra roubo de sessões. O problema não é falta de tecnologia, é teimosia em ignorar o básico.
A moral é pouco glamorosa, mas é a única que interessa: passwords vivem em gestores de passwords, não em documentos partilhados; contas de quem sai da empresa morrem no minuto em que essa pessoa passa a porta; e quem contratas para tocar em produção tem de perceber isto de origem. Se uma organização não acerta nestes três pontos, não precisa de um APT sofisticado para ser comprometida. Compromete-se sozinha.
Fonte: The Register
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