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Oracle promete abrir governação do MySQL, mas comunidade mantém desconfiança

Oracle anuncia um novo modelo de governação para o MySQL e dá lugar à comunidade. Para quem vive de open source, falta o que interessa: compromissos vinculativos e garantias a longo prazo.

Oracle promete abrir governação do MySQL, mas comunidade mantém desconfiança

Quando a Oracle sente necessidade de escrever um longo post de blog a garantir que gosta muito da comunidade MySQL, é porque a relação não está propriamente saudável. Depois da criação da OurSQL Foundation, um grupo independente que quer defender a independência e o futuro do MySQL, a dona da base de dados decidiu anunciar um “novo modelo de governação”, um comité técnico e mais abertura ao contributo externo.

No texto publicado esta semana, a Oracle fala em “próxima etapa” de transparência no desenvolvimento do MySQL. A promessa é clara: facilitar contributos em código, testes, documentação, revisões e discussões técnicas. Quem provar experiência pode tornar-se committer, com responsabilidade de rever alterações e manter a qualidade do código. É a linguagem típica de qualquer projecto open source sério, só que aqui há um detalhe essencial: toda a propriedade intelectual continua firmemente nas mãos da Oracle.

O novo modelo inclui também um technical steering committee, apresentado como fórum de orientação estratégica e representação da comunidade. Na prática, começa com três pesos pesados do cloud: Amazon Web Services, Google Cloud e a própria Oracle, a que se juntarão utilizadores ainda não identificados. A ausência da Microsoft, que vende o serviço Azure Database for MySQL, é ruidosa. O recado é óbvio, o centro de gravidade está nos grandes fornecedores de nuvem, não necessariamente nos utilizadores pequenos, nas PME ou nos administradores de sistemas que mantêm instalações on-prem em universidades e empresas espalhadas pela Europa.

É neste contexto que entra a OurSQL Foundation, criada em maio, após meses de preocupação pública sobre o compromisso de longo prazo da Oracle com o MySQL e a forma fechada como tem gerido o projecto. A desconfiança não caiu do céu. Em setembro do ano passado, a Oracle fez despedimentos “alargados” na equipa principal de desenvolvimento de MySQL. Michael “Monty” Widenius, co-autor do MySQL original, admitiu ter ficado “de coração partido”, mas não surpreendido. Quem acompanha bases de dados open source conhece bem este filme: um fornecedor corporativo corta investimento, a comunidade fica com medo de abandono, nascem forks e fundações paralelas.

Peter Zaitsev, co-fundador da consultora Percona e uma das caras da OurSQL Foundation, reconhece que há um sinal positivo. Chama-lhe um passo na direção certa e saúda a intenção da Oracle de envolver todo o “ecossistema” MySQL, como lhe chamam. O problema é o que falta no anúncio: não há compromissos vinculativos sobre a governação futura, nem garantias formais de que decisões críticas não podem ser revertidas unilateralmente pela Oracle quando der jeito ao trimestre seguinte. Em open source sério, governação não é só comités e roadmaps públicos, é também direitos claros, contratos e estruturas legais que sobrevivem a mudanças de humor corporativas.

Para quem em Portugal gere aplicações críticas em cima de MySQL, isto traduz-se numa escolha prática. Confia-se na boa vontade renovada da Oracle, com mais reuniões, summits e repositórios no GitHub, ou começa-se a olhar com mais atenção para alternativas como MariaDB e PostgreSQL, que têm modelos de governação menos dependentes de um único dono? A Oracle está a tentar recuperar narrativa num mercado onde o seu “coroa” em bases de dados já escorregou várias vezes. O que a comunidade MySQL pede não é marketing de abertura, são mecanismos que garantam que a próxima vaga de cortes de custos não leva o projeto de arrasto.

Fonte: The Register

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