CIêNCIA

Ondas de calor baralham o cérebro. A ciência tenta acompanhar

O calor extremo não só mata por exaustão. Aumenta internamentos psiquiátricos, agrava doenças mentais e mexe com atenção e humor, em formas que os cientistas ainda não conseguem explicar bem.

Ondas de calor baralham o cérebro. A ciência tenta acompanhar

Quando Londres bate recordes em junho com 36,1 °C e uma sensação térmica perto dos 39 °C, não é só conversa de elevador. É clima descontrolado a sério. E não é só o corpo que cede. O cérebro também começa a falhar, de forma mensurável. A Europa já sabe o que isto significa em mortes adicionais, sobrecarga dos hospitais e problemas em cadeia na agricultura e nas cidades, mas a parte mental continua meio na penumbra científica.

Sabemos que calor extremo e irritabilidade andam de mãos dadas. Há estudos que mostram mais agressividade e violência quando as temperaturas sobem. O problema é que a maior parte desses trabalhos é apenas correlacional. É aqui que entra gente como Catherine Thompson, psicóloga cognitiva em Liverpool, que decidiu olhar para quem lida com calor extremo em contexto controlado: bombeiros em treinos dentro de edifícios em chamas. Testa a atenção e o controlo cognitivo antes e depois da exposição ao calor. Resultado preliminar: logo a seguir à sessão, focar-se fica muito mais difícil.

A boa notícia, para já, é que nesses bombeiros tudo tende a voltar ao normal ao fim de cerca de 20 minutos de arrefecimento. A má notícia é que eles aguentam só 15 minutos de calor intenso. Nada a ver com uma onda de calor de vários dias, como as que já são rotina em Lisboa, Madrid ou no interior de Portugal. Estudar essa realidade a sério implicaria enviar baterias de testes cognitivos a milhares de pessoas em poucos dias, sempre que o aviso de calor extremo dispara. Logisticamente é um pesadelo, por isso a ciência vai atrás, quase sempre a olhar para os dados depois do desastre.

É nesses dados que a coisa fica mais sombria. Uma revisão publicada em 2023 encontrou um aumento de 9,7% nas admissões hospitalares de pessoas com perturbações de saúde mental durante ondas de calor. E alguns diagnósticos parecem ser um alvo especialmente frágil. Pessoas com esquizofrenia foram reportadas como tendo uma probabilidade três vezes maior de morrer durante a onda de calor recorde no Canadá em 2021. Não é apenas desconforto. É risco real e desigual, que atinge sobretudo quem já está em situação vulnerável.

Os mecanismos, esses, continuam turvos. Parte do efeito pode ser indireta: com calor extremo, as pessoas fecham-se em casa, evitam exercício, dormem pior. Sono, atividade física e contacto social são os pilares óbvios da saúde mental, logo qualquer perturba nestas rotinas vai derrubar quem já está em equilíbrio instável. Mas há pistas de que o calor muito acima do normal faz algo de mais específico ao cérebro. Em estudos com animais, temperaturas elevadas alteram níveis de neurotransmissores como a serotonina, baralham a forma como os neurónios comunicam. Traduzir isso para humanos em cidades cheias, com medicação, stress e pobreza à mistura, é outra escala de complexidade.

Para países como Portugal, que já combinam verões longos com redes de saúde mental subfinanciadas, ignorar este cruzamento entre clima e cérebro é ingenuidade cara. Planos de calor que só falam em idosos desidratados e em ventoinhas estão desactualizados. Falta integrar saúde mental nas respostas de proteção civil, nas autarquias, nas escolas, nos serviços de psiquiatria. O aquecimento global não é uma abstração atmosférica. Também se mede em surtos psicóticos, crises de ansiedade e lapsos de atenção quando o termómetro dispara e a cidade ferve.

Fonte: MIT Technology Review

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