GADGETS

Óculos inteligentes sem serem sinistros existem mesmo ou é fantasia

As grandes tecnológicas estão a encher caras de câmaras e IA. A pergunta já não é se é prático, é se é possível fazê-lo sem transformar o espaço público num reality show permanente.

Óculos inteligentes sem serem sinistros existem mesmo ou é fantasia

Os óculos inteligentes estão a sair da fase de brinquedo de geek e a entrar na montra da loja de centro comercial. A Meta já vendeu dezenas de milhões de pares, a Google e a Samsung preparam-se para entrar no jogo ainda este ano e a Apple aponta para 2027 com um modelo que diz querer centrar na privacidade. A questão é simples, mas desconfortável: dá para fazer isto sem sabotar a noção básica de espaço público em que não estamos sempre a ser filmados.

Hoje, o alvo principal das críticas é a Meta. Os Ray-Ban com hardware Meta gravam foto, áudio e vídeo de tudo o que o utilizador está a ver. Têm uma luz que supostamente avisa quem está por perto de que está a ser feita uma gravação, mas bastou pouco tempo até surgirem hacks e autocolantes para desligar esse aviso. A empresa respondeu com mecanismos anti-violação que desactivam os óculos se forem mexidos, mas a mensagem já passou: se o incentivo é gravar sem fricção, vai haver sempre quem torne a gravação invisível.

O episódio da função de reconhecimento facial Name Tag mostrou outro limite que as empresas tentam esticar em silêncio. A Meta chegou a embutir código que permitia identificar pessoas em tempo real através dos óculos. Só recuou depois de a existência da função ser exposta publicamente, apagando o código da app. Quando a moderação de riscos de privacidade depende de investigações externas e reacções em cima do joelho, a confiança é um recurso escasso. Não admira que eventos como a conferência de segurança DEF CON já tenham simplesmente proibido os óculos da Meta com câmara, um sinal claro de que a indústria perdeu o benefício da dúvida em contextos minimamente sensíveis.

Apesar disso, o apetite não abranda. Há quem adore estes óculos para registar uma descida de BTT em modo GoPro, para fotografar filhos sem sacar do telemóvel, ou para usar funcionalidades de acessibilidade com IA, como legendas em tempo real de conversas ou apoio a pessoas com deficiência visual. É aqui que a coisa complica: há casos de uso legítimos e até socialmente desejáveis a conviver com um potencial de abuso gigantesco. Fingir que é só uma questão de “educar utilizadores” é cómodo para as marcas, mas irrelevante para quem está do outro lado da lente sem ter sido perguntado.

Percebendo o mal-estar em volta da Meta, surgem alternativas a tentar capturar o público que quer funções inteligentes sem câmara permanente na cara. Há óculos como os Even Realities que prescindem de câmara de propósito, apostando em áudio, notificações e assistentes, e modelos como os novos Solos que trazem escudos físicos para tapar a lente em contextos sensíveis. São compromissos interessantes, mas também expõem o essencial: se precisas de uma peça de plástico para provar que não estás a filmar ninguém, o problema não é só de hardware, é de confiança institucional.

Para quem está na Europa, onde o RGPD teoricamente protege mais o espaço público, isto não é um debate académico. Óculos com gravação permanente e IA embutida colidem directamente com princípios de minimização de dados e consentimento informado. A Apple, que terá adiado os seus óculos para atacar precisamente estas questões, pode tentar vender-se como a alternativa mais contida, algo que já se nota nos rumores sobre óculos centrados na privacidade em 2027. Mas enquanto o modelo dominante for “gravar tudo e logo se vê”, a sensação de andar na rua a participar num teste A/B permanente vai continuar. E não é com luzinhas minúsculas na armação que se resolve essa fricção social.

Fonte: Wired

Newsletter

Os artigos que importam, duas vezes por semana.

Terça e sexta, cinco minutos de leitura. Sem spam, cancelas quando quiseres.

Comentários · 0