O radical da internet que empurrou a Microsoft e a AT&T para a rede
Tom Evslin foi dos poucos em Redmond a ver o email e a internet como futuro, não como risco. Depois levou a AT&T a ser ISP quando ainda sonhava ser produtora de conteúdos.
Tom Evslin foi dos poucos em Redmond a ver o email e a internet como futuro, não como risco. Depois levou a AT&T a ser ISP quando ainda sonhava ser produtora de conteúdos.
Nos anos 90, dentro da Microsoft, havia quem achasse que a internet era um extra simpático, não o centro de tudo. Tom Evslin era do outro lado da barricada. Chamava a si próprio um dos “radicais da internet” de Redmond, numa altura em que Bill Gates via sobretudo uma ameaça chamada Lotus Notes e não o tsunami que vinha da rede pública.
Enquanto a equipa construía o que viria a ser o Exchange Server para travar o avanço do Notes, Gates aceitava investir pesado no produto, mas com uma prioridade clara: matar o concorrente, não abraçar o SMTP. Evslin queria o contrário. Como “email guy”, via o sentido do vento. Bateu-se para atrasar lançamentos de Office, Exchange e Windows NT até a integração com a internet ser levada a sério. Perdeu. Gates achava que já estavam atrasados e que a conversa da internet era mais desculpa para derrapagens do que estratégia.
Ironia: a própria realidade tratou de corrigir o CEO. No Exchange, Evslin era responsável por gateways, as pontes entre sistemas de correio. Havia ligações para redes como a CompuServe ou o MCI Mail e, quase envergonhado num canto, um pequeno gateway SMTP. Oficialmente, as grandes empresas repetiam o refrão “a internet não é segura” e pediam tudo menos isso. Na prática, as caixas de entrada começaram a encher-se de trafego vindo precisamente da rede que supostamente ninguém queria usar. De repente, a Microsoft foi inundada de pedidos para esse gateway “menor”. Os engenheiros das empresas já estavam a resolver o problema por si, pelas costas da estratégia oficial.
No cliente que acompanharia o Exchange, o futuro Outlook, a ambição também era maior do que o que saiu para a rua. A equipa queria um cliente capaz de lidar com gráficos e tipos de letra, com emails formatados como documentos Word. Fazia sentido, mas a Microsoft nunca deu o passo final: Word e Outlook mantiveram motores de formatação separados. A ideia de um editor único, coerente entre documentos e email, ficou pelo caminho. Ainda hoje se sente esse legado nas pequenas inconsistências entre apps que vivem na mesma suite.
Desiludido com a falta de urgência internet na Microsoft, Evslin aceita o convite da AT&T para “desenhar a estratégia de internet” da gigante das telecomunicações. A operadora americana andava perdida em redes proprietárias e numa fantasia recorrente: transformar-se em grande fornecedora de conteúdos. Evslin puxou para o lado oposto, o pragmático. Defendeu que a AT&T devia tornar-se ISP, vender acesso simples à internet, e empurrou a empresa para um modelo de preço “all-you-can-eat”, acesso ilimitado quando o normal eram contas de telefone de fazer suar frio.
Dentro da AT&T, ouviu argumentos de manual de corporação: “não se lança um serviço novo em menos de sete anos”. A resposta foi curta: lançar rápido e adaptar. WorldNet, o serviço que acabou por nascer, oferecia acesso direto à internet a quem estava habituado a portais controlados e tarifários agressivos. A procura cresceu tão depressa que a própria AT&T teve de limitar inscrições. Olhando para trás, com Microsoft hoje central na IA generativa e a AT&T reduzida a tubagem, a história de Evslin é um lembrete incómodo: quase sempre há um “radical da internet” a avisar cedo demais. O problema é que quem decide só ouve quando já é tarde.
Fonte: The Register
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