Nintendo engorda lucros com tarifas dos EUA que não volta aos jogadores
Lucro operacional dispara 150 por cento à boleia de um reembolso fiscal de 300 milhões de dólares. E Nintendo diz que quem pagou mais pela consola não tem direito a nada.
Lucro operacional dispara 150 por cento à boleia de um reembolso fiscal de 300 milhões de dólares. E Nintendo diz que quem pagou mais pela consola não tem direito a nada.
A Nintendo abriu o ano fiscal em alta. Entre 1 de abril e 30 de junho, o lucro operacional chegou aos 142,5 mil milhões de ienes, cerca de 820 milhões de euros, contra 56,9 mil milhões de ienes (~330 milhões de euros) no mesmo trimestre de 2025. Um salto de 150,5 por cento que não vem só de Mários e Zeldas vendidos. Uma fatia importante vem de Washington.
Nos resultados enviados aos investidores, a Nintendo admite que cerca de 300 milhões de dólares, perto de 275 milhões de euros, aparecem neste trimestre como “redução do custo das vendas”. É basicamente um reembolso de tarifas aduaneiras nos EUA, ligadas às taxas impostas sobre hardware fabricado na China. Dinheiro que sai do Estado americano e entra diretamente na conta da Nintendo.
Do lado dos jogos, a máquina continua a trabalhar. O software para a Switch 2 cresceu 9,2 por cento em relação ao ano anterior, e os jogos para a Switch original surpreenderam com um aumento de 38,6 por cento. Em hardware, há travão: a Switch 2 desceu de 5,82 para 3,82 milhões de unidades no trimestre, embora acima dos 2,49 milhões do trimestre anterior. O ciclo de vida da consola está naquela fase em que os jogos seguram mais a conta de resultados do que o próprio hardware.
O problema, e onde isto deixa um sabor estranho, é o que a Nintendo faz com o reembolso das tarifas. A empresa aumentou o preço das duas consolas Switch nos EUA ao longo do último ano, justificando-se precisamente com o impacto dessas taxas. Agora, com os 300 milhões de dólares devolvidos, a tese oficial é simples: a Nintendo diz que assumiu ela própria o peso das tarifas, em vez de o repercutir totalmente nos consumidores, logo não há motivo para devolver nada a quem pagou mais pela consola.
Esta interpretação está a ser testada em tribunal nos EUA, numa ação coletiva que acusa a Nintendo de ficar com o reembolso depois de ter inflacionado os preços. A empresa está a tentar que o processo seja arquivado, alegando que os clientes não têm direito legal a uma parte desse dinheiro. Não é caso isolado: a Sony enfrenta um processo semelhante, em que se fala de um “duplo ganho” por receber reembolsos ao mesmo tempo que subia o preço da PlayStation. A indústria parece muito alinhada quando se trata de proteger margens.
Para quem joga em Portugal ou no resto da Europa, isto não mexe diretamente no preço da próxima Switch na Worten ou na FNAC. Mas diz bastante sobre a cultura de gestão da Nintendo em 2026. Quando uma fatia tão grande do crescimento de lucros vem de engenharia fiscal e não de novos jogos ou consolas, o foco da empresa fica exposto. E nenhum Joy-Con resolve a sensação de que o jogador é cada vez mais a linha de receita, não o centro da história.
Fonte: The Verge
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