CIêNCIA

NASA troca Vulcan Centaur por Falcon Heavy na missão solar SunRISE

Atrasos e anomalias no Vulcan Centaur empurram a missão SunRISE para um Falcon Heavy da SpaceX. O solar radio-telescópio em órbita fica à espera de nova data, provavelmente já em 2027.

NASA troca Vulcan Centaur por Falcon Heavy na missão solar SunRISE

Quando a carga é científica mas quem paga é a Força Espacial dos EUA, a margem para romantismo acaba depressa. A NASA pegou na missão SunRISE e tirou-a do foguete Vulcan Centaur da United Launch Alliance para a pôr num Falcon Heavy da SpaceX. A justificação oficial fala em “mudança de veículo de lançamento”. Traduzindo: depois de problemas nos boosters sólidos do Vulcan, ninguém quer arriscar uma missão financiada para segurança nacional.

O caso começou em fevereiro, no quarto voo do Vulcan Centaur. Um lançamento da Força Espacial correu quase bem: a carga chegou à órbita, mas um dos propulsores laterais sofreu um burn-through no bocal do Solid Rocket Booster. Não é o tipo de falha que se varre para debaixo do tapete. A Força Espacial terá pausado todos os lançamentos de segurança nacional neste foguetão até haver investigação fechada e correções implementadas. O problema é que SunRISE estava precisamente na fila, com testes finais concluídos no início de 2026 e lançamento previsto para este verão.

Em vez de ficar refém do calendário da ULA, a NASA pivotou para o lado que, neste momento, entrega mais voos em órbita: a SpaceX. O Falcon Heavy anda a ser tratado como cavalo de reserva, mas é o cavalo que voa. Deve ter ainda dois lançamentos em 2026, um para o telescópio Nancy Grace Roman e outro para a missão Griffin One da Astrobotic. Em 2027 há mais slots contratados pela Força Espacial e SunRISE vai provavelmente à boleia de um destes voos. É o típico efeito colateral da militarização crescente da órbita: missões científicas tornam-se dependentes da agenda dos satélites de vigilância.

SunRISE, sigla de Sun Radio Interferometer Space Experiment, não é um satélite único. São seis smallsats a voar ligeiramente acima da órbita geoestacionária, separados entre si por cerca de 10 km. Cada um abre quatro antenas de rádio com 2,5 m de comprimento e, juntos, funcionam como um único rádio-telescópio sintético para mapear rajadas de rádio geradas pelas tempestades de partículas do Sol. É física solar aplicada à escala da rede móvel: múltiplas antenas, separadas no espaço, a recompor um sinal fraco com resolução que um único observatório nunca teria.

Para quem segue o mercado de lançadores, isto é mais um prego, ainda que discreto, no caixão da ULA como fornecedor dominante de missões de alta prioridade. A empresa já andava a lutar por relevância perante a cadência da SpaceX e a entrada de novos atores, da China a startups que recuperam foguetões com redes no mar, como contámos quando Pequim apanhou o seu primeiro booster reutilizável. Agora perde também um voo científico com selo NASA. Tecnicamente, o Vulcan ainda pode regressar em força, mas a confiança institucional é mais difícil de recuperar do que a certificação técnica.

Para a ciência, o atraso de SunRISE é irritante mas não trágico. As tempestades solares não têm data de validade e a capacidade de ver melhor as rajadas de rádio continua a ser crítica para proteger satélites, redes elétricas e comunicações na Terra. O incómodo real está na mensagem: quando a linha entre missões científicas e militares se esbate, telescópios de rádio passam a depender mais do humor de generais do que de comités de astrofísica.

Fonte: The Register

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