NASA recua perante conta gigante para rover lunar reciclado
Plano de montar um novo rover lunar com restos de Curiosity e Perseverance afinal pode custar perto de 1.200 milhões de dólares. Administração diz que assim o PROMISE não descola.
Plano de montar um novo rover lunar com restos de Curiosity e Perseverance afinal pode custar perto de 1.200 milhões de dólares. Administração diz que assim o PROMISE não descola.
A ideia parecia simpática: pegar em dois modelos de teste dos rovers marcianos Curiosity e Perseverance, juntar peças, e enviar um híbrido para a Lua a preço de saldo. O problema é que o saldo, segundo contas independentes, anda entre 723 milhões e 1,33 mil milhões de dólares, algo como ~660 a ~1.220 milhões de euros. De “aproveitar sucata de luxo” a programa sério com orçamento de missão dedicada foi um instante.
O administrador da NASA, Jared Isaacman, não gostou do que viu nas contas feitas por Casey Dreier, responsável de política espacial da Planetary Society. Isaacman respondeu de forma pouco ambígua: se o custo ficar sequer perto do intervalo estimado, “simplesmente não vamos voar”. Não contestou linha a linha a análise de Dreier, mas descartou logo os custos de lançamento e alunagem, argumentando que esses são inevitáveis em qualquer missão. Ainda assim, deixou a fasquia clara: se o PROMISE custar 20 por cento do valor mais baixo da estimativa, morre à nascença.
Convém lembrar do que estamos a falar. Curiosity e Perseverance têm gémeos na Terra, os modelos de engenharia MAGGIE e OPTIMISM, usados para ensaiar manobras, testar comandos e simular o terreno marciano. São máquinas reais, não maquetas de museu, mas foram construídas para trabalhar em ambiente controlado, não para sobreviver a um lançamento, vácuo, radiação e variações extremas de temperatura na Lua. Transformar estes bancos de ensaio num rover científico funcional exige qualificar cada componente para voo, reforçar estruturas, redesenhar partes inteiras e, basicamente, assumir que a “reciclagem” é o ponto de partida de um projecto complexo, não um atalho barato.
Depois há a energia e as comunicações. A NASA até tem um gerador radioisotópico de plutónio de reserva, mas adaptar um sistema destes a um Frankenstein de hardware pensado para outro planeta não é só aparafusar e seguir viagem. Também é preciso garantir que o novo brinquedo não deixa órfãs as equipas que dependem de MAGGIE e OPTIMISM para apoiar as missões activas em Marte. Retirar modelos de engenharia de missões em curso é mexer na caixa de ferramentas de quem ainda está a meio do trabalho.
Dreier resume bem a ironia: independentemente das divergências nas contas, uma coisa é evidente, o PROMISE está longe de ser um “brinde”. E é aqui que o discurso de Isaacman ganha contornos políticos. Por um lado, diz que seria “louco” não aproveitar hardware em que os contribuintes já investiram centenas de milhões. Por outro, traça uma linha vermelha de custo tão baixa que, na prática, empurra o conceito para a prateleira. Em tempos de agendas lunares cheias de promessas e vazias de cheques, a NASA tenta vender pragmatismo sem admitir que a matemática não bate certo.
Para quem acompanha de longe, isto é mais um episódio do mesmo filme: programas lunares cheios de reutilização, sustentabilidade e poupança na apresentação, que no detalhe acabam a somar dígitos ao orçamento. Reciclar é bonito nos slides, mas em engenharia espacial a fatura do “low cost” costuma chegar com juros. Quando até um rover feito de restos de outros rovers se aproxima do patamar do milhar de milhões, percebe-se porque é que o grande luxo hoje não é ir à Lua, é conseguir fazê-lo sem fingir que sai barato.
Fonte: The Register
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