Jimmy Donaldson, o tal MrBeast que povoa o feed de YouTube de metade dos adolescentes do planeta, bateu um número que parece bug: 500 milhões de subscritores num único canal. É a primeira pessoa a chegar lá. Não é uma produtora, não é uma marca, é um tipo de 28 anos com thumbnails fluorescentes e orçamentos de cinema.
Os números ajudam a perceber onde é que isto vive. Segundo a Tubefilter, cerca de 40% da audiência de MrBeast tem entre 13 e 17 anos e mais 20% está entre os 18 e os 24. A partir daí cai a pique. Em bom português: se tens sobrinhos ou dás aulas ao secundário, é provável que eles saibam mais sobre o homem que oferece ilhas do que sobre quem manda no governo. Em Portugal, o algoritmo não é diferente, basta abrir o YouTube num telemóvel de um miúdo de 14 anos.
Para marcar o meio milhar de milhão, Donaldson fez um livestream relativamente manso, a rever vídeos antigos e marcos do canal. Nada de desafios de 24 horas em prisões privadas ou carros a chover do céu, só um criador sentado a ver o próprio arquivo. É quase irónico. A plataforma é dominada por uma estética de excesso, mas o momento histórico foi tratado como se fosse mais um vídeo de reacção.
O lado mais interessante nem é o número de subscritores. É a forma como MrBeast fala de dinheiro. Oficialmente, tem uma fortuna estimada em 2,6 mil milhões de dólares, um contrato de 100 milhões com a Amazon para um programa de competição e mais de 50% da Beast Industries, avaliada em cerca de 5 mil milhões. Ainda assim, repete em entrevistas que tem “dinheiro negativo” e que anda a pedir empréstimos porque, na conta à ordem, teria menos dinheiro do que o público adolescente que o vê.
Este truque semântico funciona bem em thumbnail, mas ignora como o dinheiro funciona quando se está nessa liga. Ele pede emprestado com a empresa como garantia. É o modelo clássico de “buy, borrow, die”, estudado até por economistas de Yale, em que património em alta serve para viver quase sem pagar impostos sobre mais-valias. O banco abre a porta, os juros são simpáticos, a linha de crédito é elástica. O oposto do que acontece com quem em Portugal anda em descoberto num cartão de crédito a 15% ao ano ou tenta um crédito pessoal de 3.000€ para tapar buracos.
O resultado é um circo peculiar: um multimilionário que encena uma espécie de pobreza técnica para uma audiência maioritariamente menor de idade, enquanto encarna como poucos essa nova Era Dourada de excesso digital. Meio bilião de subscritores a ver alguém que diz estar “no vermelho” enquanto compra bairros inteiros para família e funcionários. A tecnologia prometeu democratizar a atenção, o YouTube acabou a coroar mais um barão, só que desta vez de hoodie e thumbnail exagerado.
Fonte: Gizmodo
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