A Microsoft não está só a brincar aos remakes. Segundo um documento interno obtido pelo The Verge, a empresa quer pôr jogos de Xbox 360 a correr oficialmente em PC, na próxima consola Project Helix, em “Xbox PCs” e em consolas portáteis. Na prática, é a consola a assumir aquilo que o Steam já faz há anos: a tua biblioteca segue-te, independentemente da caixa onde jogas.
Esta expansão vem em cima do plano já anunciado para trazer jogos da Xbox original para PC, cujo “lançamento completo” está apontado a outubro de 2026, depois de um arranque tímido com apenas quatro títulos em julho. Para os jogos de 360, os estúdios vão ter de optar ativamente por aderir à retrocompatibilidade e controlam preço e presença no Game Pass. A Microsoft fala em lançamento “gradual” entre 2027 e 2028 nas máquinas da próxima geração, o que cheira menos a gesto de preservação histórica e mais a estratégia para manter viva uma biblioteca grande enquanto mexe no hardware.
O outro lado da história é mais estrutural: o tal programa “disc-to-digital”. A ideia, descrita no documento, é simples na forma e complexa nas consequências. Inseres um jogo físico de Xbox One ou Series numa Xbox One ou Series X com leitor de discos, o sistema valida o disco e concede uma licença digital ligada ao disco e à tua conta. A licença acompanha-te em todas as consolas Xbox, mas se venderes ou trocares o disco, essa licença transita para o novo dono. Adeus cópia “duplicada” e silenciosa no canto da biblioteca.
É aqui que a jogada de longo prazo se revela. A Sony já assumiu publicamente que quer empurrar a indústria para lá dos discos, e a Microsoft não parece querer ficar atrás. Criar um mapa rigoroso de licenças digitais associado a discos físicos torna muito mais fácil, daqui a uns anos, vender hardware totalmente sem leitor e dizer que a estrutura de propriedade já está preparada. Para quem em Portugal ainda compra caixas na Worten ou na FNAC para aproveitar promoções, isto é meio passo para um mercado em que a segunda mão é vigiada ao milímetro. O lado bom: continua a ser possível vender e trocar jogos. O lado menos simpático: perdes o conforto daquela cópia digital “para sempre” quando decides despachar o disco.
Segundo o documento, a Microsoft queria testar o programa disc-to-digital com Xbox Insiders em julho, com disponibilização geral em agosto. A beta foi adiada, e nem o The Verge nem a Microsoft esclarecem se o calendário se mantém. O histórico recente da marca, com cortes fortes e estúdios à venda depois de uma espécie de “reset” interno, não inspira muita confiança em planos a vários anos. Ao mesmo tempo, é o mesmo Xbox que anda a empurrar o serviço para tudo o que tenha ecrã, de TVs Hisense com VIDAA OS sem consola a PCs de média gama.
Para quem joga na Europa, isto significa duas coisas. Primeiro, há boas hipóteses de pores aquele clássico de 360 a correr no portátil sem recorrer a mods nem emulação cinzenta. Segundo, a transição lenta para um Xbox cada vez mais serviço e menos consola debaixo da televisão continua a avançar. A pergunta já não é se os discos vão desaparecer. É quanto ainda compensa investir em plástico quando a própria plataforma começa a tratá-lo como mero token para ativar a versão digital.
Fonte: The Verge
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