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Microsoft põe Rust ao nível de C++ e C# no seu próprio quintal

Rust passa a linguagem de primeira linha dentro da Microsoft. O objetivo é claro: atacar décadas de bugs de memória no Windows e no resto da casa.

Microsoft põe Rust ao nível de C++ e C# no seu próprio quintal

A Microsoft decidiu oficializar o que já se via nas margens: Rust passa a ser linguagem de Tier 1 para desenvolvimento interno, ao lado de C++, C# e TypeScript. O anúncio foi feito por Victor Ciura, principal engineer da equipa de tooling de Rust na empresa, durante a RustConf 2026 em Montréal. Em linguagem menos corporativa, isto significa que um dev em Redmond já pode escolher Rust com o mesmo apoio de ferramentas, processos e infra que teria se ficasse pelo C++ tradicional.

Segundo Ciura, a Microsoft criou um “caminho pavimentado” para Rust ao longo de todo o ciclo de desenvolvimento: suporte local, integração com a cadeia de compilação e processos internos. Não é caridade para a comunidade, é autopreservação. Depois de um Patch Tuesday recente com quase mil vulnerabilidades corrigidas, a mensagem é óbvia: o modelo de “C/C++ em todo o lado” está a sair demasiado caro.

Rust já não entra aqui como corpo estranho. A linguagem aparece em mais de 100 repositórios da Microsoft e alimenta o Oxidizer, um conjunto de crates para construir serviços escaláveis em Rust. Este stack tem sido usado em serviços nucleares do Microsoft 365 como Outlook, Word, Excel, OneDrive e SharePoint, e também em partes da pilha do Copilot. Para quem acompanha o esforço de limpar a casa em Redmond, isto encaixa na mesma lógica que inspira projetos paralelos como o Project Zenith: admitir que o legado está a mais e que não se resolve tudo com mais camadas por cima.

A peça mais técnica, e mais relevante para quem desenvolve em Windows, é a integração profunda com o MSVC, o compilador nativo de C/C++ da Microsoft. A empresa criou o rustc_codegen_utc, um backend de geração de código que liga diretamente o compilador rustc à toolchain interna do MSVC. O resultado, explica Ciura, é uma plataforma unificada de geração de código para Rust e C++ em Windows, sem duplicar todas as capacidades específicas do sistema operativo. Em termos práticos, menos fricção para equipas que misturam C++ histórico com módulos novos em Rust.

O objetivo estratégico é atacar o problema que deu origem a Rust em 2006, quando Graydon Hoare começou a linguagem na Mozilla: bugs de memória. Use-after-free, dangling pointers, overflows discretos. O tipo de falha que alimenta exploits em Windows, browsers e afins há décadas. Reescrever componentes em Rust para ganhar segurança e previsibilidade já se tornou rotina em bases de código de bases de dados, package managers e tooling, muitas vezes com IA a acelerar o processo. A Microsoft está basicamente a oficializar que este é o caminho interno também, não apenas um experimento de laboratório.

Não convém, no entanto, romantizar. Dar a Rust o selo de Tier 1 não apaga dezenas de milhões de linhas em C/C++ espalhadas pelo Windows e pelo resto do portefólio. Significa sobretudo que, daqui para a frente, há menos desculpas para novo código de baixo nível nascer vulnerável por design. Para nós, desse lado do Windows no portátil de trabalho, isto é menos sobre a moda do Rust e mais sobre reduzir a lotaria mensal de patches críticos. Se a Microsoft tiver disciplina para seguir o próprio anúncio, o maior impacto não estará nas keynotes, estará naquele exploit que nunca chega a existir.

Fonte: The Register

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