Meta testou reconhecimento facial militar nos seus óculos inteligentes
Licença com a Rank One, fornecedora do Pentágono e polícia norte-americana, mostra até onde a Meta está disposta a ir para pôr reconhecimento facial num gadget de consumo.
Licença com a Rank One, fornecedora do Pentágono e polícia norte-americana, mostra até onde a Meta está disposta a ir para pôr reconhecimento facial num gadget de consumo.
A Meta andou a testar reconhecimento facial nos seus óculos inteligentes com tecnologia de uma empresa que vende ferramentas de vigilância à polícia e aos militares dos EUA. Chama-se Rank One Computing, vive de contratos governamentais e tem no conselho ex-chefes da CIA e do FBI. Não é exatamente a lista de convidados de uma app de filtros de gato.
Documentos de licença de software obtidos pela Wired mostram que a Meta integrou o motor da Rank One numa versão de teste da app Meta AI que alimenta os óculos Ray‑Ban e Oakley. A licença incluía não só o reconhecimento facial, mas também detecção de “liveness” para garantir que a câmara está a ver uma pessoa real e não uma foto ou máscara. Em teoria, suportava até 10 milhões de templates faciais. Em prática, era um sistema pronto para escala de rede social, não um protótipo inofensivo de laboratório.
O código da Rank One acabou a ser distribuído, adormecido, numa versão recente da app Meta AI, instalada em mais de 50 milhões de telemóveis. Ao lado, a Meta tinha também o seu próprio sistema de reconhecimento facial, igualmente desligado para os utilizadores. Nada disto estava activo, mas a infra-estrutura estava lá. E isto é o ponto incómodo: empresas que já provaram que esticam os limites da privacidade a trabalhar com tecnologia afinada para vigilância de Estado.
O caso ganha outra cor quando se olha para o historial da Rank One. A empresa vende o seu software ao US Marshals Service para confirmar identidades de prisioneiros sem impressões digitais, fornece ferramentas à polícia naval norte‑americana, desenvolveu sistemas de longo alcance para as forças de operações especiais e está embutida em plataformas usadas por departamentos de polícia em vários estados e até em escolas, onde os rostos de alunos e funcionários são comparados com bases de dados de agressores sexuais. É este tipo de código que a Meta andou a pôr dentro de um gadget vendido em centros comerciais.
Formalmente, a Meta diz muito pouco. Recusou explicar por que licenciou o software, quando começou a relação ou se continua em vigor. Depois de a Wired ter revelado a existência interna de um sistema chamado NameTag, pensado para identificar pessoas através dos óculos, a empresa removeu a 5 de junho todo o código de reconhecimento facial da app. A reacção rápida diz mais do que os comunicados: a Meta sabe que pôr um “Shazam de caras” na cabeça de milhões de pessoas é politicamente tóxico na Europa e juridicamente delicado em qualquer lado com leis de protecção de dados minimamente sérias.
Há décadas que a tecnologia militar escorre para o consumo. A internet, o GPS, até partes dos chips que usamos seguiram esse caminho. A diferença é que aqui não falamos de navegação, falamos de identificação automática de pessoas no espaço público. Entre um kit biométrico usado por um US Marshal e óculos Meta vendidos numa FNAC o código é cada vez mais o mesmo. E quando a fronteira entre vigilância estatal e gadget de lifestyle fica tão fina, a escolha já não é só da Meta. É dos reguladores europeus que têm o Digital Markets Act e a lei da IA em punho. E é nossa, cada vez que decidimos se queremos uma câmara sempre ligada na cara ou não.
Fonte: Wired
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