CIêNCIA

Lixeira na órbita da Terra. Segue-se a Lua?

A órbita terrestre já está cheia de lixo. A próxima fronteira é a Lua e a proposta portuguesa em cima da mesa chama-se sucateiros lunares com IA a comandar o trânsito.

Lixeira na órbita da Terra. Segue-se a Lua?

No dia 5 de agosto, o estágio superior de um Falcon 9 deve embater na Lua. Não é uma missão científica nem um feito épico, é só mais um pedaço de sucata em alta velocidade. A pergunta óbvia não é como evitar este, é como impedir que a órbita lunar se transforme na mesma lixeira que criámos à volta da Terra.

Para Chiara Manfletti, CEO da portuguesa Neuraspace, a resposta pode passar precisamente por assumir a sucata como primeira classe. A ideia: escolher zonas específicas na superfície lunar como “cemitérios” de hardware, onde restos de foguetões e satélites seriam depositados, catalogados e, no futuro, reciclados. Em vez de deixar estágios mortos em órbitas caóticas ou queimá-los na atmosfera, trazê-los para um ferro-velho lunar planeado.

É uma proposta menos romântica do que bases científicas, mas mais honesta com o histórico da indústria espacial. À volta da Terra, inventámos órbitas-cemitério para satélites geostacionários e zonas “protegidas” que, na prática, valem o que cada país decidir cumprir. Manfletti é clara: com o volume actual e futuro de objectos em órbita, toda a órbita devia ser tratada como protegida, não só alguns anéis convenientes. Mesmo as órbitas-cemitério são uma solução temporária, na melhor das hipóteses. “Talvez um dia possamos reutilizar o material que está lá”, diz. O talvez é o problema.

A Neuraspace vive deste caos. Usa modelos de IA e ML (machine learning) para prever probabilidades de colisão entre satélites e detritos, num catálogo de objectos que não pára de crescer desde 2024. A empresa, que já trabalha com a Agência Espacial Europeia em gestão de tráfego espacial, representa bem a viragem recente: a infraestrutura em órbita deixou de ser assunto de nicho quando entrou pela guerra da Ucrânia dentro, com spoofing e jamming de sinais de navegação a afectarem até viagens oficiais de líderes europeus. De repente, orbitas e constelações passaram a ser assunto de primeira página, não só de engenheiros e fãs de space. Por cá, o tema também começa a parecer menos ficção científica, basta lembrar o satélite que já responde a pedidos em linguagem natural em pleno espaço.

O dilema à volta da Lua repete o padrão terrestre, mas com um bónus: ainda vamos a tempo de não estragar tudo. Manfletti continua céptica em relação a uma grande lei global vinculativa, justamente porque pôr EUA, China, Índia, Europa e afins a respeitar o mesmo manual é quase fantasia. A aposta passa por “soft power” tecnológico e contratual, com grandes agências e clientes a exigirem critérios de sustentabilidade orbital a quem quiser jogar neste campeonato. Se NASA, ESA, ISRO e aliados começarem a colocar requisitos claros de fim de vida, zonas de depósito e talvez mesmo sucateiros lunares, o mercado segue. Se ficarmos à espera de consenso universal, ganhamos outra nuvem de lixo.

À medida que a exploração se espalha de Marte, com rovers cada vez mais eficientes, à órbita baixa saturada de mega-constelações, a Lua arrisca-se a ser só mais um sítio onde largamos coisas e seguimos viagem. Transformar o satélite natural num estaleiro de sucata parece heresia poética, mas é provavelmente mais honesto do que fingir que a reentrada descontrolada é sustentabilidade. A escolha é simples: ou planeamos os ferro-velhos agora, ou acordamos daqui a umas décadas com a Lua a precisar de uma empresa de limpeza em escala industrial.

Fonte: The Register

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