CIêNCIA

LG esfria a bolha dos carros com baterias de estado sólido

O chefe da LG Energy Solution na América do Norte diz que os carros com baterias de estado sólido estão a 10 anos. A Europa está a apostar precisamente no contrário.

LG esfria a bolha dos carros com baterias de estado sólido

Enquanto políticos e marcas de carros vendem a ideia de baterias de estado sólido como se estivessem ao virar da esquina, a LG Energy Solution deita água fria no entusiasmo. O presidente para a América do Norte, Robert Lee, diz sem rodeios: o problema não é a química em laboratório, é fabricar células grandes em massa. E com isso empurra os carros eléctricos com estado sólido para “daqui a uma década”.

A frase não vem de uma startup qualquer, vem da empresa que acabou de abrir a mais recente fábrica de baterias dos EUA, em Lansing, Michigan. Segundo Lee, as células pequenas já conseguem boa densidade energética, o drama começa quando se passa para formatos grandes, como os usados em automóveis. “Se estás a fazer factores de forma muito grandes, a maioria das empresas está a ter dificuldades”, resumiu. A previsão dele é clara: baterias de estado sólido chegam primeiro aos smartphones, só muito depois aos carros.

Do lado de cá do Atlântico, o enredo é outro. A ProLogium começou em fevereiro a construir em Dunquerque, França, aquela que é apresentada como a primeira gigafábrica de estado sólido da Europa, com 12 GWh de capacidade. Uma startup neerlandesa também já garantiu financiamento público para a sua própria fábrica. A aposta europeia assume precisamente que é possível escalar o formato grande mais depressa, algo que a LG, na prática, está a pôr em causa.

Os construtores europeus mexem-se, mas ainda em modo protótipo. A Mercedes correu um EQS experimental quase 1.200 km com células da Factorial Energy. A BMW já pôs um pack da Solid Power num i7. A Stellantis anda a testar num Dodge Charger Daytona. Só que dois destes três exemplos são sistemas semi-sólidos, não totalmente sólidos. Esta nuance técnica é exactamente o buraco que Lee aponta: muita comunicação de marketing conta semi-sólido como se fosse o “santo graal” sólido, e boa parte dos calendários de lançamento vive nessa ambiguidade conveniente.

A China acelera em papel. BYD, CATL, Geely e companhia falam em produção piloto de células de estado sólido em 2027, com maior escala perto do fim da década. Se isto se confirmar, Portugal e o resto da Europa ficarão a comprar tecnologia asiática para pôr em carros “europeus”, algo que já acontece com muitas baterias actuais. A LG, em vez de prometer saltos mágicos, está a fazer aquilo que a indústria sabe fazer: espremer mais da tecnologia existente.

Com a General Motors, a coreana desenvolve células ricas em manganês que usam muito menos níquel e cobalto, prometendo mais de 400 milhas de autonomia por volta de 2028, a custo semelhante aos actuais packs de fosfato de ferro-lítio. Em paralelo prepara células cilíndricas da série 46 na fábrica do Arizona e testa baterias de sódio-íon para armazenamento estacionário. Traduzindo: menos fé na bala de prata do estado sólido, mais hedge entre várias químicas. Para quem em Portugal anda a adiar a compra de um eléctrico à espera dessa “próxima geração”, a mensagem é pouco romântica mas útil, o carro que vais conduzir nos próximos 10 anos vai depender mais de optimizações cuidadas do que de promessas de laboratório.

Fonte: The Next Web

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