Trinta anos depois do arranque do Kool Desktop Environment, o KDE continua a ser uma das grandes referências no mundo Linux. E entra na idade adulta com polémica marcada para este fim-de-semana na Akademy, a conferência anual do projecto, que este ano acontece na Universidade de Tecnologia de Graz, na Áustria. Há bolo de anos e festa, mas o prato forte é uma proposta de desktop “nativo de IA” que promete dividir a sala.
O projecto celebra o seu 30.º aniversário com algum orgulho: foi um dos primeiros ambientes de desktop totalmente FOSS (free and open source software) para Linux, com a versão 1.0 a chegar em 1998, ainda muito longe de Waylands, Flatpaks e afins. Hoje o KDE Plasma vive em várias distribuições, de Arch a Fedora, passando por Debian e por spins de Ubuntu, e continua a ser para muita gente a alternativa séria às propostas mais minimalistas tipo Xfce ou mais fechadas como o desktop do ChromeOS.
O foco, porém, está na talk de domingo à tarde com título sugestivo: “What would it take? A lovable, sovereign, AI-native KDE”. Os autores são dois nomes com história no projecto, Eva Brucherseifer e Jan Muehlig, responsáveis em 2003 por um estudo de usabilidade sobre o então fresco KDE 3.1, onde 87 por cento de 60 trabalhadores de escritório sem experiência em Linux disseram ter gostado de trabalhar com KDE. São pessoas que conhecem bem o desktop tradicional, o que torna a proposta actual mais provocadora.
A ideia-base é esta: um KDE Plasma que “te ama de volta” precisa de te conhecer. Em vez de um chatbot pendurado na barra, o desktop seria montado em tempo real a partir de um modelo pessoal teu, pequeno e portátil, baptizado Kadai, descrito como um “kernel pessoal” encriptado e independente de qualquer fornecedor. A partir daí, Plasma comporia cada Activity com widgets e disposições adaptadas “por utilizador, por dispositivo, por momento”. Para chegar lá, os autores defendem algumas mudanças de raiz, como uma camada de reconciliação declarativa e capacidades por widget, que tratem a IA como infraestrutura do shell, não como adereço.
Em teoria, isto soa a wet dream de keynote de conferência de IA: um computador que se molda continuamente aos teus hábitos, preferências e contexto. Na prática, há pelo menos três problemas óbvios. Primeiro, privacidade: mesmo que Kadai seja encriptado e “vendor-agnostic”, a quantidade de dados pessoais necessária para o tal retrato fiel do utilizador é tudo menos trivial. Segundo, controlo: um desktop que decide por ti o que mostrar e como, em cada momento, aproxima-se perigosamente daquilo que muitos tentam fugir, vindo de Windows e macOS, quando escolhem Linux. Terceiro, fadiga: depois de anos de interfaces a meter IA em todo o lado, a promessa de mais um “assistente inteligente” embutido no shell não entusiasma toda a gente.
O escritor e crítico de IA David Gerard já apontou semelhanças entre esta visão e o Resonant Computing Manifesto, um documento muito falado em 2025 por pintar um futuro de computação “ressonante” com o utilizador e que ele próprio desmanchou mais tarde num ensaio corrosivo. E não ajuda que, noutra frente, contribuidores do Trinity Desktop Environment, o fork de KDE 3, andem a experimentar código gerado por IA, alimentando o receio de um desktop cada vez mais opaco, cosido por máquinas em vez de programadores humanos.
Há aqui um contraste curioso com o regresso recente de ambientes clássicos como o GEM em cima de Linux, que explorámos quando falámos do regresso do desktop do Atari ST. Uma parte da comunidade corre atrás de agentes, modelos pessoais e shell auto-ajustável. Outra volta-se para interfaces compreensíveis, previsíveis e, sobretudo, sob controlo do utilizador. Aos 30 anos, o KDE está mesmo no meio deste choque geracional. Se decide virar-se para um Plasma montado por IA ou reforçar o modelo clássico com melhorias cirúrgicas vai dizer muito sobre que tipo de desktop queremos ter daqui a outra década.
Fonte: The Register
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