GEM, o velhinho desktop do Atari ST, voltou… em cima de Linux
Um programador esloveno pegou no código aberto do GEM e deu-lhe um corpo moderno em Linux. Pelo meio espeta uma farpa elegante na guerra Wayland vs X11.
Um programador esloveno pegou no código aberto do GEM e deu-lhe um corpo moderno em Linux. Pelo meio espeta uma farpa elegante na guerra Wayland vs X11.
O GEM, ambiente gráfico da Digital Research que muitos europeus conheceram nos Amstrad PC1512 e PC1640, está de volta. Não como peça de museu, mas a correr em cima de Linux, com direito a janelas, ícones e até um terminal Bash num quadrado cinzento com ar de 1987.
O projecto chama-se GEM for Linux e vive no GitHub. É um port do desktop do Atari ST, criado pelo programador esloveno Tomaž Štih. Em vez de reinventar a roda, ele parte do código do GEM libertado pela Caldera em 1999 e do trabalho acumulado da comunidade FreeGEM, que há mais de duas décadas anda a restaurar tudo o que a pressão legal da Apple arrancou da versão original para PC.
O truque técnico é elegante: as aplicações GEM partilham um servidor gráfico próprio, que tanto pode desenhar directamente no framebuffer de Linux como correr dentro de uma janela, via Rasta, um emulador de framebuffer baseado em SDL2 também escrito por Štih. Resultado prático, podes ter um desktop GEM inteiro a viver numa janela em qualquer distribuição moderna, lado a lado com um GNOME ou um KDE a sério. Não resolve o novelo X11 vs Wayland, mas goza discretamente com o drama: enquanto a comunidade discute protocolos, um ambiente de há quase 40 anos chega e funciona.
Historicamente, o GEM foi uma das primeiras GUIs a sério para máquinas compatíveis com MS-DOS. Na Europa ganhou peso por vir incluído com PCs Amstrad baratos, quando um Macintosh era financeiramente irrealista. Em 1985, a Apple ameaçou levar a Digital Research a tribunal devido à semelhança com o interface do Mac. A DR cedeu e retirou ícones de unidades no ambiente de trabalho, janelas sobrepostas e outros detalhes. A versão Atari escapou a esse corte, e foi esse ADN gráfico que acabou por inspirar parte da limpeza visual que hoje ainda associamos a interfaces “clássicos”.
Desde que a Caldera abriu o código, a comunidade FreeGEM não só repôs as funções amputadas como foi buscar extras a variantes comerciais: curvas de Bézier do GEM/4 empacotado com o CCP Artline, botões 3D do runtime GEM/5 usado no Timeworks Publisher, e mais umas quantas afinações. O GEM for Linux herda esse trabalho todo e traz a vantagem de não exigir hardware antigo nem acrobacias de emulação pesada. É só compilar, correr e mergulhar num tipo de desktop onde o rato faz pouco mas faz previsível, o que até sabe bem depois de meia dúzia de animações em Wayland.
Não é a primeira vez que o legado Atari assenta o pé no presente. O EmuTOS, por exemplo, já oferecia um sistema operativo e GUI totalmente abertos para máquinas Atari originais. A diferença aqui é o alvo: Linux moderno, PCs actuais, gente que hoje discute soberania digital e alternativas ao Windows como em quem anda a testar browsers novos em Linux, mas que não se importa de trabalhar num ambiente que caberia inteiro num disquete. Em termos práticos, o GEM for Linux é nicho absoluto. Em termos simbólicos, é um lembrete pouco simpático de que muito do que andamos a complicar já foi resolvido, com menos camadas, há décadas.
Fonte: The Register
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