CIêNCIA

Isar entra no clube orbital privado e Londres aposta nas Shetland

A Isar Aerospace tornou-se a primeira empresa europeia 100% privada a pôr um foguetão em órbita. Ao mesmo tempo, Reino Unido e EUA mexem-se para não ficar fora do novo mapa espacial.

Isar entra no clube orbital privado e Londres aposta nas Shetland

A Europa privada já tem um foguetão em órbita. A alemã Isar Aerospace lançou o Spectrum com sucesso a partir de um espaçoporto na Noruega, dentro do Círculo Polar Árctico, e tornou-se a primeira empresa totalmente comercial europeia a chegar à órbita terrestre baixa. Fê-lo ao segundo voo, o que é tudo menos trivial neste sector em que o aço costuma queimar mais depressa do que o dinheiro.

Se tens lido a Pixel, isto é a continuação lógica do que já contámos em como a Isar abalou o espaço europeu e em como as startups de foguetões voltaram à linha de tiro. A empresa nasceu em 2018, criada por três estudantes, e precisou de oito anos para chegar ao espaço, um calendário muito semelhante ao de outros privados de sucesso nos EUA. Pelo caminho levantou cerca de 1.000 milhões de dólares em várias rondas de financiamento e juntou quase 500 pessoas em folha de salários. Isto não é um spin-off simpático de uma agência pública, é capital privado a sério a atacar um mercado onde a Europa andava adormecida.

É aqui que a política entra na história. O modelo clássico europeu de acesso ao espaço vive de “geo-return”: os governos pagam o programa e, em troca, exigem que uma fatia do trabalho e do orçamento vá para as suas indústrias nacionais. Com empresas como a Isar, a lógica muda. O dinheiro vem sobretudo de fundos e investidores, a localização das fábricas deixa de ser uma decisão diplomática e passa a ser uma escolha industrial. Se isto correr bem, a ESA e os estados-membros vão ter de decidir se continuam a tratar o espaço como obra pública ou se aceitam que o grosso da inovação vem de quem arrisca o próprio balanço.

Do outro lado do Atlântico, uma velha promessa ressuscitou. A Aevum, quase esquecida desde que apresentou em 2020 o seu plano para o Ravn X, um avião-foguetão autónomo para lançar pequenos satélites, reapareceu discretamente num aeroporto de Long Beach. Fotógrafos de aviação apanharam a silhueta de um aparelho grande e muito fino, alegadamente um mockup do Ravn X. O fundador, Jay Skylus, fala num “Teste 2” do protótipo SN0, com o primeiro táxi totalmente autónomo durante 37 minutos. Telemetria para aqui, dados para ali, mas zero planos concretos para um voo. Depois dos prazos falhados para uma órbita em 2021, o ceticismo é o único combustível abundante.

Enquanto isso, o Reino Unido tenta redesenhar o seu lugar no mapa espacial europeu pós-Brexit. Londres apresentou uma nova estratégia espacial nacional e prometeu 7,8 mil milhões de libras até 2030, cerca de 9,1 mil milhões de euros, com foco em conectividade e defesa em órbita baixa, incluindo programas como SKYNET. Uma parte simbólica, 30 milhões de libras, vai directa para o SaxaVord Spaceport nas Shetland, a norte da Escócia, pensado precisamente para lançamentos orbitais e suborbitais de pequenos foguetões comerciais, incluindo alemães como os da própria Isar.

Para Portugal, que continua sem plano sério para um espaçoporto nos Açores e com presença tímida na nova corrida privada, estes movimentos são um sinal claro: quem quer um pedaço da economia espacial deixa de discutir “se” e passa a discutir “onde” e “com que capital”. A Isar já escolheu. O Reino Unido também. A Aevum afirma que ainda está a caminho. O resto da Europa tem de decidir se quer ficar no clube dos lançadores ou apenas na bancada a celebrar quando algum dos seus acerta na órbita.

Fonte: Ars Technica

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