CIêNCIA

Startups europeias de foguetões somam milhões e voltam à linha de tiro

Isar, PLD Space e HyImpulse puxam pela nova vaga de lançadores europeus enquanto a NASA afina a forma como compra lançamentos comerciais.

Startups europeias de foguetões somam milhões e voltam à linha de tiro

Enquanto se fala de Artemis e de foguetões gigantes, é no segmento dos pequenos lançadores que a Europa está a mexer-se mais depressa. Três startups, três cheques gordos e uma mensagem clara: Bruxelas prefere agora regar várias apostas em vez de viver dependente de um só Ariane.

A alemã Isar Aerospace está prestes a tentar de novo pôr o Spectrum em órbita a partir do espaçoporto de Andøya, no norte da Noruega. O primeiro voo de teste correu mal pouco depois da descolagem e o segundo tem sido adiado por falhas técnicas e problemas de agenda no local de lançamento. Ainda assim, a empresa tem margem para insistir: em agosto recebeu um contrato de 200 milhões de euros da ESA (Agência Espacial Europeia) para desenvolver novos veículos de lançamento. Não é trocos, sobretudo para uma empresa privada que ainda não provou nada em órbita.

O contexto norueguês não ajuda. O novo período de lançamentos abre em plena fase de luto nacional pela morte do rei Harald V. O fundador da Isar diz que prefere lançar antes do funeral, o governo responde que a missão pode avançar normalmente. A leitura fria é simples: quando um país investe num espaçoporto e a ESA injeta 200 milhões numa empresa, a prioridade é não deixar a infraestrutura parada. O calendário simbólico é importante, mas o relógio comercial corre mais depressa.

Mais a sul, a espanhola PLD Space garantiu 108 milhões de euros adicionais numa ronda de financiamento liderada pela Mitsubishi Electric. O alvo é o primeiro voo orbital do Miura 5, um pequeno foguetão pensado precisamente para o nicho onde a Europa tem falhado: colocar pequenos satélites em órbita sem depender de boleias em lançadores maiores. A cereja em cima do bolo foi o contrato de 159 milhões de euros da ESA no âmbito do European Launcher Challenge, partilhado com a própria Isar e com a Rocket Factory Augsburg. A mensagem política é quase pedagógica: diversificar fornecedores para não repetir a novela da dependência do Soyuz russo.

No meio deste festival de cheques, a alemã HyImpulse fecha mais de 50 milhões de euros numa extensão da sua ronda Series A, somando agora 125 milhões arrecadados desde o início. Prepara o segundo voo suborbital do SR75 e a estreia do SL1, já com ambição orbital. Curiosamente ficou de fora dos contratos do European Launcher Challenge. É o risco de um mercado que de repente parece cheio de dinheiro público: quem fica de fora tem de provar que sobrevive mais do que um ciclo de subsídios.

Do outro lado do Atlântico, a NASA está a reorganizar a forma como compra lançamentos, reunindo vários programas numa nova estrutura chamada Commercial Access to Space. A ideia em cima da mesa é clara: compras em bloco para ganhar escala, baixar preços e simplificar burocracia. Para quem acompanha o reforço de papéis de empresas como a Blue Origin, que já ganhou da NASA a futura rede de telecomunicações em Marte, isto é coerente com a linha dos últimos anos. A diferença é que, enquanto nos EUA a agência já se habituou a viver com um mercado privado robusto, na Europa a ESA está ainda a fabricar esse mercado à base de cheques estratégicos. Se estas startups conseguem transformar milhões em órbita regular, então começa a haver alternativa séria ao duopólio Ariane/Vega. Se não conseguirem, voltamos à estaca zero, só que mais cara.

Fonte: Ars Technica

Comentários · 0