Hélène Huby quer dar à Europa o foguetão que lhe falta
A fundadora da The Exploration Company levanta 450 milhões de dólares e põe em cima da mesa aquilo que a ESA evita dizer em voz alta: sem foguetão grande e cadência alta, a Europa é passageira.
A fundadora da The Exploration Company levanta 450 milhões de dólares e põe em cima da mesa aquilo que a ESA evita dizer em voz alta: sem foguetão grande e cadência alta, a Europa é passageira.
Enquanto a Europa anda às voltas com o Ariane 6 e powerpoints sobre o “próximo grande lançador”, Hélène Huby decidiu não esperar por consenso em Bruxelas. A empreendedora francesa, ex-Airbus e ex-ArianeGroup, está de volta ao centro do palco com uma ronda de investimento Série C de 450 milhões de dólares, através da sua The Exploration Company. Não é dinheiro à escala SpaceX, mas é a maior Série C alguma vez conseguida por uma empresa espacial europeia, e muito provavelmente o maior cheque já passado a uma empresa liderada por uma mulher no continente.
Huby não chega do nada. Passou uma década dentro do “velho espaço” europeu, viu por dentro o peso da burocracia e decidiu fundar a The Exploration Company há cinco anos. Começou com algo relativamente modesto: uma cápsula de carga para órbita baixa. Daí nasceu a Nyx, nave de carga que está agora em revisão de segurança da NASA para uma missão de abastecimento à Estação Espacial Internacional em 2028. Enquanto muita startup europeia vive de renders e press releases, ter hardware a caminho de uma review séria da NASA conta bastante.
Mas o plano de Huby não acaba na carga. A obsessão dela é o voo tripulado, e a empresa já trabalha numa versão de Nyx preparada para astronautas, seja para a ISS, seja para futuras estações privadas nos EUA. Aqui a janela política joga a favor: cresce na Europa a vontade de ter acesso autónomo à órbita para astronautas europeus, cansada de depender de cápsulas americanas ou russas. O próprio diretor da ESA, Josef Aschbacher, disse recentemente que quer um mandato político para desenvolver esta capacidade até ao fim do ano. Se esse mandato aparecer, a The Exploration Company entra automaticamente na pole position.
Onde Huby se afasta mais da cartilha europeia é no tamanho da ambição. A empresa anunciou também o desenvolvimento do motor Storm, um motor de combustão em fluxo total com oxigénio líquido e metano, com cerca de 400 mil libras de empuxo. A ideia é alimentar um foguetão reutilizável capaz de pôr 40 toneladas em órbita em modo reutilizável e 60 em descartável, com uma meta agressiva de entrada em serviço em 2033. Para comparação, o Ariane 6 fica pelas 20 toneladas e é totalmente descartável. Ou seja, Huby está a dizer em voz alta o que já escrevemos quando a Isar Aerospace deu o primeiro abanão: a cadência e o modelo de negócio do “velho Ariane” não chegam para um mundo de megaconstelações.
O discurso de Huby é desarmante de tão simples: sem um foguetão grande, reutilizável e com cadência alta, a Europa deixa de contar. Não há IRIS² que nos salve se for lançado ao ritmo de missões científicas dos anos 90. O problema é que um foguetão desses custa milhares de milhões, e os 450 milhões agora levantados chegam apenas para pôr de pé a nave de carga, avançar no modelo tripulado e ter um primeiro protótipo do motor Storm a fazer testes de fogo até 2028. Ela própria admite que será preciso mais capital, provavelmente combinando contratos institucionais europeus com dinheiro privado, num movimento que lembra mais a SpaceX inicial do que o costumeiro consórcio Airbus-Safran.
Vista de Portugal, esta corrida pode parecer distante, mas não é. Quem define os lançadores e as cápsulas define também onde é processada a tal “soberania de dados” que enche discursos em Bruxelas. França percebeu isso e pôs Huby ao lado de Thomas Pesquet como enviada especial numa cimeira internacional do espaço organizada por Emmanuel Macron. A questão é se o resto da Europa acompanha ou continua preso ao conforto institucional. O capital privado já começou a mexer em Munique e Paris, como se viu com o boom das startups europeias de foguetões. Falta saber se os políticos estão preparados para aceitar que o próximo “grande programa europeu” possa nascer numa startup francesa em vez de num consórcio desenhado a régua para agradar a todos.
Fonte: Ars Technica
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