Guido Tonelli e o velho sonho humano de matar o tempo
Do mito de Cronos aos buracos negros, um físico de partículas desmonta a nossa obsessão em dobrar o tempo. E mostra porque é que a ciência só complicou a história.
Do mito de Cronos aos buracos negros, um físico de partículas desmonta a nossa obsessão em dobrar o tempo. E mostra porque é que a ciência só complicou a história.
Guido Tonelli não é filósofo de café nem guru de produtividade. É um dos físicos de partículas que ajudaram a descobrir o bosão de Higgs em 2012 e decidiu atacar um alvo mais escorregadio: o tempo. No livro Time: The Dream of Killing Chronos, o italiano olha para a velha fantasia humana de derrotar o relógio, do mito grego aos buracos negros. A conversa com o Gizmodo mostra como a ciência não matou a angústia, só a tornou mais sofisticada.
Tonelli parte de Cronos, o deus do tempo primordial, imaginado como uma serpente com três cabeças, a girar com a deusa da inevitabilidade em torno do cosmos. É uma imagem que ainda serve: tempo como algo gigantesco, inevitável e que corrói tudo. A pergunta que ele insiste em trazer para o centro não é técnica, é íntima. Por que é que aceitamos que tudo se deteriora numa única direção, sem possibilidade de recuar, e ao mesmo tempo sonhamos em parar, inverter, escapar?
Esse “sonho de matar Cronos” aparece em literatura, religião, ficção científica, promessas de criogenia e até nas fantasias de IA que faz o upload da consciência. Tonelli lembra que, durante séculos, a física parecia dar-nos um palco confortável para esse sonho: o tempo absoluto de Newton e a ordem kantiana em que todos partilham o mesmo relógio universal. O mundo moderno foi desenhado em cima dessa ficção prática. Fuso horário, comboios, mercados globais, o teu calendário de trabalho. Tudo assume um tempo homogéneo e neutro.
O problema, sublinha o físico, é que o século XX rebentou com essa ideia. A relatividade especial de Einstein mostrou que espaço e tempo não são caixas separadas, são um único tecido, maleável, em que o que muda de referência muda de tempo. Move-te perto da velocidade da luz e o teu relógio desacelera em relação a quem fica quieto. Dez anos depois, a relatividade geral foi mais longe: massa e energia deformam esse tecido. Em torno de corpos muito massivos, como estrelas de neutrões ou buracos negros, o tempo estica, curva, aproxima-se de algo que já não faz sentido chamar “antes” e “depois” como fazemos em casa.
É aqui que a obsessão antiga ganha uma ironia moderna. A física contemporânea identificou zonas do universo onde Cronos praticamente não manda, como o interior teórico de um buraco negro, mas são regiões onde nenhum humano quer estar. Sim, há contextos em que o tempo “pára” ou se torna irrelevante, mas à escala microscópica das partículas ou nas fronteiras cósmicas. Para a vida humana, continuamos presos ao fluxo irreversível que a termodinâmica descreve. A tal seta do tempo que empurra chá quente para frio, corpos jovens para velhos e estrelas para anãs brancas.
Tonelli acusa-nos, com alguma elegância, de não termos interiorizado esta visão. Usamos GPS e telecomunicações que dependem diretamente de correções relativísticas, mas continuamos a pensar o tempo como um rio uniforme que corre fora de nós. O desconforto é compreensível: se o tempo é local, plástico e dependente do observador, então a nossa narrativa linear de vida e de progresso fica abalada. E isso torna mais óbvia a tensão de base. A ciência deu-nos métricas finas de segundos atómicos e cenários cósmicos em que o tempo colapsa, mas não nos deu um mecanismo para escapar à única componente que nos interessa biologicamente: a finitude. Matar Cronos, por agora, continua no domínio da metáfora. O que mudou foi a precisão com que conseguimos descrever a sua faca.
Fonte: Gizmodo
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