CIêNCIA

Exército dos EUA ensaia perseguições em órbita quase em segredo

O exercício Victus Haze testa lançamentos em dias ou horas para inspeccionar satélites “inimigos”. É treino técnico, mas também recado geopolítico em plena órbita baixa.

Exército dos EUA ensaia perseguições em órbita quase em segredo

Na sexta-feira houve um lançamento orbital militar e quase ninguém reparou. Sem livestream, sem pompa, só avisos a pilotos e navios a pedirem que evitassem uma zona ao largo da Nova Zelândia. Dias depois, a pista apareceu onde interessa: no catálogo público de objectos em órbita do Exército dos EUA.

O exercício chama-se Victus Haze e é a nova brincadeira séria da Space Force, o ramo militar que gere as operações espaciais dos EUA. A missão, feita com a Rocket Lab a partir da Península de Māhia, pôs em órbita o satélite Victus Haze Puma, um pequeno inspector que foi lançado para uma órbita polar entre 347 e 461 km de altitude. O objectivo não é telecomunicações nem observação da Terra, é testar quão depressa os EUA conseguem responder a um problema em órbita.

A ideia é simples no papel e desconfortável na prática: um satélite, o Jackal da empresa True Anomaly, faz de suposto adversário, como se fosse um activo chinês ou russo potencialmente hostil. O Puma, da Rocket Lab, fica em “standby” pronto a ser lançado quando o comando militar der ordem, com a órbita calculada para o ir encontrar. O lançamento de sexta-feira foi temporizado para coincidir com a passagem do Jackal-0004 sobre a Nova Zelândia e, segundo dados orbitais analisados pelo astrofísico Jonathan McDowell, o Puma aproximou-se a cerca de 100 km apenas oito horas depois de chegar ao espaço.

Este tipo de rendezvous e operações de proximidade, conhecidas por RPO, não é novo. O que é novo é o enquadramento assumidamente táctico. A True Anomaly vende uma plataforma de satélites altamente manobráveis e um software stack pensado para “operações de rendezvous não cooperativas de ponta a ponta”, tradução: chegar perto de algo que não quer colaborar. A empresa já tinha anunciado em maio que o Jackal tinha cumprido todos os objectivos de teste e estava pronto para a próxima fase, sem dizer qual. Agora sabemos: servir de cobaia num exercício de perseguição em órbita.

Do ponto de vista técnico, Victus Haze encaixa no esforço de reduzir o tempo de resposta de anos para semanas, dias ou horas. Se um satélite estratégico for danificado ou se detectar actividade suspeita em órbita baixa, a doutrina que está a ser ensaiada aqui é poder lançar um inspector quase em modo “alerta máximo”. Em termos de engenharia de lançamento, coordenação com uma empresa privada e planeamento orbital, é um sinal claro de maturidade do chamado “espaço responsivo”. E liga-se a outras tendências em curso, desde satélites que respondem em linguagem natural até constelações geridas com forte camada de IA.

Mas há a outra metade da história. Treinar satélites a aproximarem-se rapidamente de outros, sem cooperação, é também treinar capacidades que podem ser vistas como anti-satélite, mesmo que ninguém use a palavra. Num contexto em que a órbita baixa já está saturada por megaconstelações como a Starlink, que a própria SpaceX está a empurrar ainda mais para o lado da defesa, este tipo de exercício é menos “ficção científica militar” e mais normalização de tácticas de confronto no espaço. Para quem olha de fora, incluindo Europa e Portugal, o sinal é claro: o espaço deixou de ser palco neutro e passou a ser mais um teatro operacional, com satélites a fazer de caçador e presa em silêncio, longe dos holofotes.

Fonte: Ars Technica

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