Encrypted Spaces quer levar encriptação total a apps tipo Slack
Antigos engenheiros do Signal estão a abrir o código de uma arquitectura que promete colaboração em grupo ao estilo Slack ou Google Docs, mas com encriptação ponto-a-ponto por defeito.
Antigos engenheiros do Signal estão a abrir o código de uma arquitectura que promete colaboração em grupo ao estilo Slack ou Google Docs, mas com encriptação ponto-a-ponto por defeito.
Os nomes que ajudaram a pôr o Signal em milhões de telemóveis andam agora a apontar a mira a um alvo maior: todo o software de colaboração em grupo. Chama-se Encrypted Spaces e não é mais uma app de chat. É um conjunto de bibliotecas open-source pensado para ser o esqueleto criptográfico de futuras apps tipo Slack, Discord ou Google Docs, mas sem o modelo clássico de servidor que tudo vê.
O problema de base é conhecido, mas muita gente prefere ignorar: a encriptação ponto-a-ponto funciona bem em conversas a duas, menos quando tens equipas inteiras a editar documentos, gerir canais e partilhar ficheiros em simultâneo. O modelo mental do “tubo” com duas pontas rebenta assim que começas a falar de espaços com dezenas de utilizadores. Hoje, na prática, serviços de colaboração sacrificam privacidade em troca de conveniência. O servidor desencripta, processa, indexa, faz pesquisa e analytics. E fica com o poder todo.
O grupo por trás do Encrypted Spaces, com gente de Harvard, Microsoft Research e ex-desenvolvedores do Signal, tenta furar esse compromisso. A metáfora aqui deixa de ser o tubo e passa a ser um espaço partilhado: um conjunto de dados hospedado num servidor, onde vários utilizadores entram, fazem alterações, convidam outros ou expulsam intrusos, mas em que o servidor continua cego para o conteúdo. A peça-chave são truques criptográficos recentes, como as zero-knowledge proofs (provas de conhecimento nulo), que permitem a uma máquina verificar a integridade de dados encriptados sem os conseguir ler.
Trevor Perrin, cocriador do protocolo do Signal que hoje suporta também o WhatsApp e o Facebook Messenger, está no núcleo do projecto. Matt Green, professor em Johns Hopkins focado em criptografia, descreve-o basicamente como um “Signal para apps de colaboração”. A diferença prática é importante: em vez de um protocolo fechado numa app, tens uma arquitectura e um repositório de código que outros podem usar para construir o seu próprio Slack privado ou um concorrente ao Google Docs que não transforma cada frase num dado indexável em servidores alheios.
Para já, o que existe é um “preview” de bibliotecas de código, não um produto com interface polida à espera na App Store. A equipa está explicitamente a pedir escrutínio da comunidade académica e de developers, coisa que nem todas as plataformas que juram privacidade se dão ao trabalho de fazer. A ambição declarada é baixar tanto a fasquia técnica que se torne quase preguiça lançar uma app de colaboração sem encriptação ponto-a-ponto. Em teoria, um programador que nunca leu um paper de criptografia deveria conseguir montar uma app complexa em cima destes blocos.
Do ponto de vista de quem trabalha em Portugal ou na Europa e depende de suites em nuvem de grandes empresas norte-americanas, a ideia é tentadora, mas não é uma salvação automática. Construir apps fiáveis em cima de criptografia avançada é difícil, mesmo com boas bibliotecas, e há sempre atrito entre funcionalidades “enterprise” e privacidade séria. Além disso, nenhuma arquitectura técnica resolve, sozinha, questões de confiança em quem opera o serviço, modelos de negócio baseados em dados ou legislação que insiste em portas traseiras. Mas se os próximos clones de Slack e Google Docs nascerem já com este tipo de fundação, o padrão de exigência sobe. E isso, para uma internet cansada de ceder tudo ao servidor, não é detalhe.
Fonte: Wired
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