CIêNCIA

Elroy Air quer valer 1.000 milhões com drones de carga via SPAC

A startup californiana de drones de carga prepara-se para entrar em bolsa por via de um acordo SPAC de 800 milhões de dólares. Muito capital para um hardware que ainda não voa comercialmente.

Elroy Air quer valer 1.000 milhões com drones de carga via SPAC

O obituário das SPAC (special-purpose acquisition company) já foi escrito várias vezes. Pelos vistos, foi cedo demais. A mais recente reencarnação deste veículo financeiro chama-se Elroy Air, uma startup de drones de carga que está em conversas avançadas para se estrear em bolsa com uma avaliação em torno de 1.000 milhões de dólares, apoiada numa angariação de cerca de 800 milhões de dólares, segundo avançou a imprensa norte-americana.

Do outro lado da mesa está a Columbus Circle Capital Corp. II, uma SPAC ligada à equipa da Inflection Point Asset Management. O modelo é o clássico: em vez de enfrentar a radiografia de um IPO tradicional, a Elroy Air cola-se a uma “empresa cheque em branco” já listada, ganha rapidez e reduz escrutínio público no processo. A história recente de mobilidade e aeroespacial cheia de SPAC falhadas sugere que, para investidores exigentes, isto devia ser um sinal amarelo bem aceso.

O que alimenta o entusiasmo é o produto. A Elroy Air, fundada em 2017, desenvolve o Chaparral, um drone híbrido-elétrico com descolagem e aterragem vertical pensado para o chamado middle-mile, o trajecto entre um hub logístico e um armazém local. A proposta: transportar cerca de 136 kg de carga de forma autónoma em distâncias até perto de 480 km, demasiado longe para um furgão ser barato e demasiado curto para um avião convencional fazer sentido. É, na prática, o primo musculado dos drones de mercearia e encomendas que já voam comercialmente na Europa.

Para justificar a avaliação, a Elroy Air exibe um backlog de cerca de 1.500 pré-encomendas, com nomes como a FedEx e a Bristow Group, mais contratos e “interesse activo” de forças armadas dos EUA e aliados. Em janeiro assinou ainda uma joint-venture de 200 milhões de dólares com o grupo Barq, de Abu Dhabi, para fabricar o Chaparral, com objectivo de arranque comercial ainda em 2026. O ângulo de defesa está a ganhar peso, num contexto em que a logística autónoma em zonas remotas ou contestadas é prioridade militar tanto quanto civil, tal como se vê noutras apostas de aviação alternativa, dos táxis aéreos aos dirigíveis solares que querem substituir satélites.

O problema é que pré-encomendas não são receita, e “arranque em 2026” continua a ser futuro. A indústria de entrega por drone leva mais de uma década a prometer escala que quase nunca chega, com protótipos vistosos e maquetes em powerpoints a avançarem mais depressa do que as certificações, o enquadramento regulatório e a própria aceitação pública. A Elroy Air está mais perto do metal e da pista do que muita concorrência de slide deck, mas continua a pedir ao mercado que pague hoje por um negócio que só amanhã se verá se descola.

Para Portugal, isto não muda já a forma como a encomenda da FNAC ou do supermercado chega à porta. Muda, sim, o termómetro de apetite de capital para veículos autónomos de carga de maior porte. Se um drone que ainda não está em operação comercial massiva consegue uma quase-IPO a 1.000 milhões de dólares num mercado alegadamente cansado de SPAC, significa que o dinheiro para grandes promessas aeroespaciais não secou, apenas ficou mais selectivo. A Elroy Air está prestes a descobrir se pertence ao grupo dos sobreviventes ou às notas de rodapé da próxima bolha.

Fonte: The Next Web

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