Doom a correr num Commodore 64 é retro‑bruxaria em estado puro :)
Um engenheiro pegou no clássico de 1993 e enfiou-o dentro de um micro dos anos 80. Não parece jogável, mas é um feito técnico difícil de ignorar.
Um engenheiro pegou no clássico de 1993 e enfiou-o dentro de um micro dos anos 80. Não parece jogável, mas é um feito técnico difícil de ignorar.
Pensavas que já tinhas visto Doom a correr em tudo o que mexe. Telemóveis baratos, frigoríficos, calculadoras gráficas, testes de gravidez. Agora junta-se à lista o Commodore 64, o micro de 8 bits que muitos portugueses conheceram mais por emulação do que por ter estado em cima da secretária lá de casa.
O culpado é Steve McCrea, engenheiro e programador que já passou por vários jogos Metroid e pelo port em realidade virtual de Resident Evil 4. No currículo agora entra outra coisa bem mais absurda: uma versão funcional de Doom para o C64. Funcional não quer dizer confortável. O vídeo que partilhou mostra algo que é claramente Doom, mas a rastejar em fotogramas gordos, com resolução microscópica e um mar de pixels que faria um CRT dos anos 80 suar.
Tecnicamente, nem é um port 3D no sentido clássico. McCrea explica, numa publicação no X, que esta versão assenta no código de The Keep, um dungeon crawler em primeira pessoa que criou para o Commodore VIC‑20. Usa ray casting num mapa em grelha, um truque à Wolfenstein 3D, mas aqui puxado até ao limite num chip MOS 6510 com uns míseros kilobytes de RAM. A diferença é que o The Keep era um labirinto plano. Neste Doom de 8 bits há alturas diferentes de chão e tecto, plataformas elevatórias, portas que se abrem e até armas visíveis no ecrã.
O vídeo mais recente mostra ainda mais exagero técnico: céu com skybox, iluminação variável que simula zonas mais escuras e brilhantes, e os níveis E1M1 a E1M8 já metidos dentro da máquina. Falta-lhe uma coisa que num jogo destes pesa mais do que muita textura: música. McCrea diz estar à procura de um músico, o que é quase um convite aberto à cena chiptune europeia que vive à volta de demoscene, ZX Spectrum, Amiga e companhia. Não seria chocante ver meia dúzia de veteranos da cena C64 a oferecerem-se para meter aqui uns riffs metálicos em SID.
É fácil olhar para isto como simples curiosidade para Reddit, mas há outro lado. Para quem cresceu com consolas modernas e PCs preparados para ray tracing, ver Doom espremido num Commodore 64 é uma lição prática de como se dobram máquinas limitadas até ao ridículo. Há muito de cultura hacker, de demo técnica ambulante, mais do que de vontade séria de criar “a melhor forma” de jogar Doom em 2026. Para isso há ports nativos em tudo, de Switch a Xbox, passando por serviços na nuvem que só falham quando há um apagão global de licenças como o recente da Xbox.
No fim, esta versão C64 é um lembrete meio sarcástico: o hardware de consumo estagnou em forma, não em potência. Metemos placas gráficas obscenas dentro de caixas todas iguais, enquanto uns quantos teimosos continuam a pegar em máquinas com 40 anos e a arrancar-lhes truques que os fabricantes nunca imaginaram. Doom a correr num Commodore 64 não muda nada no presente, mas diz muito sobre a relação estranha que continuamos a ter com o passado dos jogos.
Fonte: PC Gamer
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