Dengue e chikungunya já são um problema europeu, não só tropical
O mosquito-tigre asiático está a transformar o mapa das doenças em Europa aquecida. Portugal não é exceção, só parece distraído.
O mosquito-tigre asiático está a transformar o mapa das doenças em Europa aquecida. Portugal não é exceção, só parece distraído.
Em 2024, a cidade costeira de Fano, em Itália, teve um sinal claro do que vem aí: quase duzentos casos de dengue, todos apanhados sem sair da Europa. Nenhum dos doentes tinha viajado para zonas tropicais. O denominador comum era bem mais próximo, um bairro específico da própria cidade. O vírus chegou às pessoas via Aedes albopictus, o mosquito-tigre asiático, que até há poucos anos seria apresentado como “exótico”. Hoje é residente.
O mosquito-tigre já está estabelecido em grande parte da Europa, e a fronteira vai-se deslocando para norte à boleia do aquecimento global. Este mosquito é particularmente eficiente: pica de dia e de noite, sobrevive a invernos suaves, e adora temperaturas entre 20 e 30 ºC. Estudos citados por investigadores italianos e britânicos mostram que continua ativo perto dos 10 ºC e que consegue transmitir vírus como o chikungunya a partir dos 14 ºC. Traduzindo: já há condições, em boa parte do continente, para épocas de transmissão muito mais longas.
Hoje, a maioria dos surtos segue um guião relativamente simples. No fim do verão, alguém regressa de viagem com dengue ou outro vírus que não circula cá. Um mosquito-tigre pica essa pessoa, o vírus instala-se no mosquito, e a seguir espalha-se localmente a quem tiver o azar de estar na vizinhança. Quando o tempo arrefece, os mosquitos abrandam, as cadeias de transmissão quebram. Se o “verão de mosquitos” passar a durar mais meses, o número de infeções pode escalar depressa e a linha entre surtos ocasionais e doença endémica fica perigosamente ténue.
Há um detalhe que torna isto ainda mais desconfortável: bastam diferenças de dois graus para alterar o mapa de risco. O estudo recente sobre chikungunya mostra que tínhamos subestimado a capacidade do mosquito-tigre em climas mais frescos. Ao mesmo tempo, o calor extremo também tem limites. Acima de 35 ºC, especialmente com seca, o mosquito sofre. Ecólogos em Espanha e sul de França notam este ano menos mosquitos em zonas fustigadas por ondas de calor e incêndios. Ou seja, o problema não é linear. É caótico. E sistemas de saúde pouco preparados não lidam bem com caos.
Portugal está no meio deste tabuleiro. Já temos mosquito-tigre em várias regiões do país, confirmados por vigilância entomológica, e um clima que se aproxima cada vez mais dos cenários descritos para Itália e Grécia, onde os adultos são detetados de março até dezembro. Continuar a tratar dengue, chikungunya ou vírus do Nilo Ocidental como curiosidade de férias é um erro estratégico. A larga maioria das medidas eficazes, da eliminação de água parada à monitorização de focos urbanos, depende de políticas consistentes e de literacia básica em saúde pública. Não de campanhas pontuais quando o alarme já tocou.
Os investigadores citados na peça original dizem para nos habituarmos a esta nova realidade. O problema é que habituar, por si só, não chega. A Europa já teve de reinventar planos de prevenção para fogos e ondas de calor; vai ter de fazer o mesmo para doenças que, até há pouco tempo, eram etiquetadas como “tropicais”. Ignorar o mosquito-tigre agora é repetir o erro clássico da tecnologia: só levar a sério quando já é impossível desligar.
Fonte: Wired
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