Mais de uma dúzia de pessoas morreu, não no impacto, mas por ficar presa dentro de um Tesla depois do embate. O ponto em comum é o mesmo: puxadores de porta electrónicos, embutidos na carroçaria, que deixam de funcionar quando o carro perde energia e que escondem demasiado bem a saída mecânica de emergência.
Agora, o regulador rodoviário dos Estados Unidos, a NHTSA (National Highway Traffic Safety Administration), decidiu que não vai abrir uma investigação formal a um defeito específico da Tesla. Em vez disso, publicou um aviso no registo federal onde basicamente diz: o problema não é só de um fabricante, é de toda a indústria, portanto o caminho é fazer novas regras que obriguem todos os carros a ter um sistema de saída de portas robusto e óbvio, mesmo sem energia eléctrica.
Em causa estão puxadores que operam por comando electrónico e ficam alinhados com a chapa para melhorar a aerodinâmica. A teoria é elegante, o efeito real é bem menos. Há vários casos documentados em que ocupantes sobreviveram à colisão mas acabaram feridos graves ou mortos após ficarem presos dentro de um Tesla em chamas. Há também falhas associadas à bateria de baixa voltagem que tornam os puxadores inúteis. A China já foi mais directa: este ano proibiu puxadores de porta totalmente electrónicos por motivos de segurança.
O caso que desencadeou este passo da NHTSA veio de um engenheiro de Silicon Valley, Kevin Clouse, que apresentou uma petição de defeito. Depois de um embate frontal num Tesla Model 3 de 2022, o carro perdeu energia total e incendiou-se. Os puxadores eléctricos deixaram de funcionar, Clouse não conseguiu encontrar de imediato o comando mecânico de abertura e acabou a trepar para o banco de trás para sair por uma janela. A NHTSA rejeitou a petição enquanto investigação de defeito, mas na própria decisão admite que o desenho actual das saídas de emergência nos carros modernos merece regras novas.
Daqui até qualquer mudança real vai tempo. Um processo de criação de regras nos EUA costuma demorar entre dois e cinco anos, o que empurra qualquer exigência nova para perto de 2030. Pelo meio, a indústria automóvel não costuma ficar calada quando sente custos adicionais, como já se viu na resistência às regras de travagem automática de emergência mais exigentes. Há ainda o Congresso a tentar legislar por conta própria, com propostas para obrigar a libertações manuais claras em novos carros e soluções de acesso rápido para bombeiros quando o sistema eléctrico morre.
Para a Tesla isto é mais um capítulo na lista de problemas de segurança que têm chegado ao regulador. Depois de casos como o FSD a acelerar contra uma casa, a discussão já não é só sobre software de condução autónoma, é sobre decisões de design que sacrificam redundância em nome da estética ou da eficiência. A própria Tesla disse no ano passado que vai redesenhar os puxadores, sem calendário claro. Entretanto, quem compra um eléctrico com puxadores “cool” faria bem em estudar o manual e saber exactamente onde está a puxar a corda mecânica. A tecnologia nos carros está a avançar depressa, mas sair de dentro em caso de incêndio continua a ter de ser óbvio para qualquer pessoa em pânico, não um puzzle de UX automóvel.
Fonte: The Verge
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