CIêNCIA

Cientistas criam visão noturna a cores com pontos quânticos e OLED

Um protótipo chinês transforma infravermelhos em imagem a cores, leve o suficiente para óculos e ambicioso o bastante para prometer próteses visuais.

Cientistas criam visão noturna a cores com pontos quânticos e OLED
Representação conceptual de óculos de visão noturna.

Os óculos de visão noturna que conhecemos continuam presos ao verde militar dos filmes dos anos 90. Um grupo do Beijing Institute of Technology decidiu rasgar esse molde: construiu um protótipo que converte luz infravermelha em imagem directamente a cores, sem tabelas falsas adicionadas por software no fim da linha.

O truque está numa combinação pouco habitual: pontos quânticos de telureto de mercúrio acoplados a um OLED (díodo orgânico emissor de luz) de dupla camada. Os pontos quânticos, com poucos nanómetros, têm níveis de energia discretos. Isso permite-lhes responder de forma diferente consoante o comprimento de onda e a intensidade do infravermelho que recebem. Os sinais gerados seguem depois para a estrutura OLED: uma camada emite vermelho, outra ciano, separadas por uma barreira de energia que regula como é que as cargas atravessam o sistema.

Com entrada fraca em infravermelho, o dispositivo acende sobretudo o vermelho, fraco. À medida que o sinal fica mais intenso ou passa para comprimentos de onda mais curtos, mais carga supera a barreira e activa a camada ciano. O resultado é uma mistura de cores e luminosidades que codifica informação física real, não um «filtro verde» aplicado no fim. É aqui que se afasta da visão nocturna tradicional, que basicamente mede potência total num intervalo largo de infravermelhos e despeja tudo em variações de brilho de uma só cor.

Os investigadores falam num aumento da sensibilidade a pequenas variações de potência infravermelha, precisamente porque cada combinação de comprimento de onda e intensidade gera um ponto diferente nesse espectro vermelho-ciano. Em testes controlados, o sistema conseguiu mostrar padrões simples e objectos em movimento, sob iluminação de infravermelho de onda curta, através de um protótipo em forma de óculos. O conjunto pesa 23 gramas, é semitransparente, e permite ver simultaneamente a cena real e a versão «a cores» em infravermelho, ou, se preferires, filtrar a luz visível para uma visão mais imersiva.

Depois há a parte mais ambiciosa: o mesmo sinal convertido foi usado para estimular sistemas biológicos. Em laboratório, células modificadas para reagir à luz visível responderam à saída do dispositivo, mas não ao infravermelho puro. Em testes adicionais, registou-se actividade cerebral em ratos e respostas na retina de voluntários humanos quando expostos à imagem processada. Os autores falam em «redefinir» a visão infravermelha e abrir caminho a próteses visuais de próxima geração. É a frase típica de artigo científico, mas aqui há pelo menos um protótipo real a sustentar o entusiasmo.

Os pés, contudo, continuam bem colados ao chão: tudo foi feito em ambiente controlado, com alvos de alto contraste e cenas simples. Falta saber se, numa rua de Lisboa numa noite chuvosa, esta abordagem ainda separa informação útil do ruído. O OLED precisa de alimentação externa, por isso, neste momento, estamos mais perto de uns óculos com HUD a infravermelho do que de uma «segunda retina» passiva. E a escolha de telureto de mercúrio levanta perguntas óbvias sobre toxicidade e uso prolongado junto ao corpo que o artigo simplesmente contorna. A ideia de meter um composto pesado tão perto do olho sem uma avaliação séria de segurança não é exactamente reconfortante.

Mesmo assim, o conceito é interessante por mexer na base do problema: em vez de tentar pintar a cinzento aquilo que o sensor não vê, leva a cor para o próprio acto de detecção. Se alguma vez chegar a um produto comercial, pode mexer tanto com visão nocturna militar e industrial como com interfaces de realidade aumentada. Até lá, é um lembrete de que há muito espaço para fazer hardware de visão fora da bolha habitual dos sensores de smartphone.

Fonte: Tech Spot

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