CIêNCIA

China volta a liderar o ranking dos supercomputadores com o LineShine

O LineShine passa os 2 exaflops só com CPUs e destrona o El Capitan norte-americano. Embargos, quais embargos.

China volta a liderar o ranking dos supercomputadores com o LineShine

Não é com um anúncio em grande palco que se ganha a corrida aos supercomputadores. A China voltou ao topo do ranking Top500 com o LineShine, um sistema até aqui escondido, que atinge 2,198 exaflops de desempenho sustentado em dupla precisão usando apenas CPUs. Fica assim à frente do El Capitan dos EUA, que se fica pelos 1,809 exaflops no laboratório Lawrence Livermore.

O detalhe que mais incomoda Washington é precisamente esse: o LineShine não depende de GPUs. Em vez da receita dominante NVIDIA + CPUs x86, o sistema chinês assenta num processador customizado de 304 núcleos, somando 13,79 milhões de núcleos a 1,55 GHz, ligados por um interconnect proprietário. Tudo isto a puxar cerca de 42,2 megawatts, com uma eficiência de 52,07 gigaflops por watt. Para quem tem acompanhado a guerra dos chips entre EUA e China, isto soa menos a milagre e mais a consequência.

Segundo o Top500, o LineShine é o primeiro supercomputador a passar os 2 exaflops de forma sustentada só com CPUs. É um número simbólico, claro, mas também um recado: os embargos a GPUs de ponta não travaram a ambição chinesa no cálculo de alto desempenho, apenas empurraram o país para uma rota mais fechada e autossuficiente. Como disse o organizador do Top500, Jack Dongarra, ao New York Times, a China “ultrapassou-nos desenvolvendo um sistema que não é dependente de GPUs”. Traduzindo, o plano americano tem falhas.

O novo ranking mostra já cinco sistemas acima da fasquia do exascale: um na China, três nos EUA e um na Alemanha. O Frontier do Oak Ridge National Laboratory desce para terceiro lugar, com 1,353 exaflops, o Aurora do Argonne fica em quarto com 1,012 exaflops e o Jupiter Booster do centro de Jülich fecha o top 5 com 1 exaflop certinho. O Top500 sublinha ainda a diversidade de arquitecturas: Intel, AMD, NVIDIA, APUs, aceleradores customizados. Não há um único caminho dominante, há várias tentativas para fugir ao aperto das cadeias de fornecimento e da geopolítica.

A verdadeira opacidade está noutro lado. Apesar de o LineShine ter sido desenvolvido sem financiamento público, o que permitiu aos responsáveis submetê-lo aos testes do Top500 sem esbarrar em regras internas chinesas, quase nada se sabe sobre quem fabrica os CPUs ou que tecnologia de fabrico usam. Tal como noutros projectos chineses de IA e hardware, há uma linha deliberada entre o que se mostra por fora e o que se esconde por dentro. Para quem olha da Europa, isto torna o mapa tecnológico global mais opaco, mas também mais honesto: a competição real já não é só entre empresas, é entre blocos políticos inteiros.

Neste contexto, o LineShine não é apenas um número numa tabela, é um marcador de fase na disputa EUA-China pelo controlo do cálculo avançado. Enquanto se discute o acesso chinês a modelos de IA ocidentais como o Mythos da Anthropic, a China vai construindo, em silêncio, a infraestrutura que lhe permite depender cada vez menos dos outros. A pergunta já não é quem tem o supercomputador mais rápido, é quem controla a próxima geração de chips que nem sequer podemos ver de perto.

Fonte: Engadget

Newsletter

Os artigos que importam, duas vezes por semana.

Terça e sexta, cinco minutos de leitura. Sem spam, cancelas quando quiseres.

Comentários · 0